Piscina Pública em Berlim: Extremistas de Direita Transformam Lazer em Palco de Debate Racista e Ameaças
Uma iniciativa artística e social em Berlim, a piscina pública temporária “Volksbad”, projetada para oferecer alívio durante ondas de calor, transformou-se em um inesperado campo de batalha para a extrema direita alemã. O que era para ser um espaço de lazer e integração para a população da capital alemã, acabou se tornando o epicentro de um acalorado debate sobre racismo e discriminação.
A polêmica surgiu quando um horário da piscina foi reservado para uma aula de natação exclusiva para crianças negras, promovida pela associação “Each One Teach One” (Eote). Essa reserva, justificada pela lei antidiscriminação de Berlim que prevê espaços para grupos historicamente discriminados, foi rapidamente rotulada como “racismo reverso” por políticos de direita e parte da imprensa.
O caso ganhou repercussão nacional e internacional, expondo as tensões sociais e políticas na Alemanha em um momento pré-eleitoral. A situação escalou com ameaças e intimidações direcionadas à associação e às crianças, forçando o fechamento temporário da “Volksbad” e levantando questões sobre a segurança de projetos que visam combater o racismo.
O Conceito Inovador da “Volksbad” e a Polêmica Inesperada
A “Volksbad”, uma piscina de 25 metros de comprimento e 1,3 metro de profundidade, foi instalada em uma praça árida de Berlim como uma intervenção urbana idealizada por Matthias Lilienthal, diretor artístico do teatro Volksbühne. O projeto, orçado em cerca de 300 mil euros, buscava oferecer um respiro à população em meio a um verão de calor recorde e criticar a crescente comercialização e controle dos espaços públicos na cidade.
O teatro descreve a iniciativa como um “manifesto” e um “convite de verão à capital”, visando suprir a falta de infraestrutura pública e lazer. Lilienthal explicou que a piscina funciona com recursos públicos, mas com gestão independente, e que o uso parcial do orçamento para lazer é uma forma de expor a necessidade de o poder público focar nas demandas da população.
A piscina, que funcionaria gratuitamente e mediante reserva por oito semanas, segue regras de uso semelhantes às das outras 67 piscinas públicas de Berlim. Os horários matutinos são frequentemente destinados a clubes de natação e associações para aulas e atividades específicas, como seria o caso da Eote.
A Reação da Extrema Direita e o Debate sobre “Racismo Reverso”
A reserva de horário para crianças negras gerou uma reação imediata e intensa. Aileen Weibeler, vereadora distrital do partido CDU, criticou a medida em uma postagem que viralizou, alegando sentir-se discriminada por ser branca e não poder usar a piscina naquele momento. A crítica rapidamente alcançou figuras proeminentes da política alemã.
Alice Weidel, colíder do partido populista de extrema direita AfD, comparou a situação a um “apartheid”. Stefan Evers, candidato da CDU à prefeitura de Berlim, declarou que não apoia a “divisão de pessoas com base na cor da pele”. Jornais conservadores como o Die Welt e o Bild ampliaram o debate, ignorando as explicações de Lilienthal sobre a lei antidiscriminação.
Lilienthal defendeu a ação, afirmando que a reserva seguia a lei estadual antidiscriminação de Berlim, que estipula a oferta de “espaços especiais” para pessoas que sofrem discriminação. Ele ressaltou que outras associações, como uma que apoia moradores de rua e um grupo ativista pela liberação da natação no rio Spree, também tinham horários reservados, mas apenas a reserva da Eote gerou polêmica.
Ameaças e Fechamento Temporário da “Volksbad”
Diante do clima de hostilidade, a sessão de natação da Eote foi cancelada pelo teatro e pela própria associação, por receio de atos de violência contra as crianças. A Eote relatou ter sido alvo de intimidações e está considerando medidas legais. Lilienthal confirmou a presença de “blogueiros de direita” filmando do lado de fora do teatro, o que o levou a solicitar a presença policial.
A “Volksbad” permaneceu fechada por dois dias, gerando acusações de que o diretor artístico estaria cedendo à pressão dos extremistas de direita. Em resposta, funcionários do teatro exibiram uma faixa com a mensagem: “Vão se foder”. Lilienthal declarou que buscará retomar a programação original, avaliando as objeções políticas e as medidas de proteção necessárias.
O Contexto Político e a Luta Contra o Racismo
O incidente ocorre em um contexto político delicado na Alemanha, com eleições municipais em Berlim em setembro e um cenário de ascensão da AfD, que obteve vitórias inéditas em outros estados. A “Volksbad” tornou-se, assim, um microcosmo das tensões sobre identidade, pertencimento e racismo no país.
A lei antidiscriminação de Berlim, que fundamenta ações como a reserva de horários para grupos minoritários, visa combater as desigualdades estruturais. No entanto, a reação à iniciativa da Eote demonstra a resistência e a polarização em torno de discussões sobre racismo e privilégios, expondo a fragilidade de projetos que buscam promover a inclusão em um ambiente social e político cada vez mais dividido.





