América Latina Sob a Nova Era Trump: Entre Cooperação e Pressão dos EUA
Desde seu retorno ao poder em 2025, Donald Trump tem posicionado a América Latina como prioridade em sua política externa. Utilizando uma combinação de pressão econômica, pacotes de ajuda financeira e até mesmo ações militares, o governo americano busca reafirmar sua hegemonia na região, citando a histórica Doutrina Monroe.
A estratégia de Trump para a América Latina, oficializada na Estratégia de Segurança Nacional de novembro passado, tem como objetivo restaurar a “preeminência americana no Hemisfério Ocidental”. Essa abordagem, resumida na máxima “América para os americanos”, marca um retorno a políticas intervencionistas, embora com nuances distintas das eras anteriores.
O recente interesse dos EUA na América Latina é visto por analistas como uma resposta aos crescentes investimentos da China na região. Essa mudança de foco levou a uma retirada gradual do envolvimento americano em conflitos como os do Iraque e Afeganistão, redirecionando esforços para o que Washington considera seu “quintal”. A informação é de Juan Gabriel Tokatlian, professor de relações internacionais na Universidade Torcuato Di Tella, na Argentina, e Michael Shifter, pesquisador e ex-presidente do Inter-American Dialogue.
A Doutrina Monroe Revisitada e a Influência Chinesa
A Doutrina Monroe, originalmente formulada no século XIX, ganha nova roupagem na política de Trump. Segundo Michael Shifter, não se trata de conter ideologias como na Guerra Fria, mas sim de projetar poder e demonstrar superioridade militar. A estratégia americana busca consolidar sua influência em um momento de crescente presença chinesa na América Latina.
Essa disputa por influência pode levar a um aumento do ressentimento contra os EUA e seus governos aliados na região, alertam analistas. O histórico de intervenções militares unilaterais americanas é mal visto, e a percepção de subordinação de governos locais a Washington pode gerar instabilidade e retrocessos nas relações bilaterais por muitos anos.
Líderes de Ultra-Direita e a Nova Ordem Regional
A eleição de líderes alinhados à ultra-direita tem facilitado a aproximação com os Estados Unidos. Países como Argentina, Chile, Equador e Peru têm visto a ascensão de figuras como Javier Milei, José Antonio Kast e Keiko Fujimori, que demonstram disposição em cooperar com a agenda americana.
Essa cooperação, segundo Tokatlian, ocorre “por convite, não por imposição”, com os países buscando recursos, assistência ou promessas em troca. Um exemplo é o resgate financeiro dos EUA à Argentina, que evitou uma crise cambial antes das eleições legislativas.
Venezuela e Cuba: Exemplos de Pressão e Adaptação
Enquanto alguns países se alinham voluntariamente, outros enfrentam pressão e sanções. A Venezuela, por exemplo, passou de uma suposta ameaça a um “neoprotetorado por imposição”, segundo Tokatlian. Cuba, por sua vez, enfrenta uma crise energética devido ao bloqueio americano, forçando o país a realizar sua maior reforma econômica desde a revolução.
O Brasil e o México se encontram em posições intermediárias, alternando entre a reivindicação de soberania e a negociação com os EUA. O México, em particular, tem cooperado ativamente na entrega de líderes do narcotráfico e no reforço de fronteiras.
Nicarágua e a Transacionalidade de Ortega
Mesmo países como a Nicarágua, cujos líderes criticam o “imperialismo ianque”, têm se adaptado à agenda de Trump. Daniel Ortega e Rosario Murillo colaboram com os EUA em questões como deportações e controle de fronteiras, buscando explorar o caráter transacional da política americana. A democracia e os direitos humanos parecem secundários na agenda de Washington para esses casos, segundo analistas.
A estratégia de Trump para a América Latina, para muitos, carece de coerência e se resume a uma demonstração de força. O temor é que essa abordagem, se mantida, reforce a imagem negativa dos EUA na região e abra ainda mais espaço para a influência da China, especialmente entre as gerações mais jovens. A informação é citada por Michael Shifter.





