Ridley Scott apresenta “Ponto Sem Retorno”, um filme com a marca do diretor, mas que tropeça em clichês do gênero distópico.
Aos 88 anos, Ridley Scott demonstra que seu vigor criativo está longe de acabar. O cineasta, conhecido por clássicos como “Alien”, “Blade Runner” e “Gladiador”, lança nesta quinta-feira (27) o filme “Ponto Sem Retorno”. A obra se passa em um futuro apocalíptico e exibe a inconfundível assinatura de Scott na direção, com um cuidado técnico notável em sua fotografia e design de produção.
No entanto, conforme apurado pelo g1, o que poderia ser um novo marco na carreira do diretor se vê prejudicado por um roteiro que abusa de elementos já conhecidos em produções similares. A história, embora bem conduzida visualmente, carece de originalidade, mergulhando em um mar de clichês que enfraquecem o impacto geral da narrativa.
O filme conta com um elenco talentoso, que tenta suprir as lacunas do roteiro. Jacob Elordi, Josh Brolin e o cão Raksha, que interpreta Jasper, são alguns dos destaques. A direção de Scott é, sem dúvida, o grande trunfo de “Ponto Sem Retorno”, mas nem mesmo seu talento consegue resgatar completamente uma trama que peca pela falta de novidade.
Um futuro desolador e a busca por esperança
A trama de “Ponto Sem Retorno” nos transporta para um futuro onde um vírus devastador dizimou a humanidade. Em meio a esse cenário desolador, acompanhamos Hig, interpretado por Jacob Elordi, que vive em uma base aérea abandonada com Bangley (Josh Brolin) e seu fiel cão Jasper. A rotina é marcada pela busca por suprimentos e pela esperança de que exista vida além das fronteiras de seu refúgio.
A vida de Hig muda quando um evento inesperado e uma misteriosa transmissão o levam a deixar a segurança da base. Um problema em seu avião o força a pousar em um rancho isolado, onde conhece Cima (Margaret Qualley) e seu pai, Pops (Guy Pearce). Ele passa a integrar essa nova família, encontrando um vislumbre de paz.
Contudo, o desejo de Hig de explorar o desconhecido e outros imprevistos o colocam diante de desafios ainda mais perigosos do que a própria doença que assolou o planeta, testando seus limites e sua resiliência.
O fantasma do déjà vu em narrativas distópicas
O principal obstáculo de “Ponto Sem Retorno” reside em seu roteiro, assinado por Mark L. Smith, conhecido por “O Regresso”. Baseado no livro “Na Companhia das Estrelas”, de Peter Heller, o roteirista falha em criar situações que escapem das armadilhas comuns ao subgênero de futuros distópicos, caindo frequentemente no trivial.
Dessa forma, diversas cenas e perfis psicológicos de personagens remetem a sucessos como “Jogos Vorazes”, “Eu sou a Lenda” e “Extermínio”. Essa falta de originalidade pode gerar uma sensação de déjà vu no espectador familiarizado com o gênero, diluindo o impacto do bom trabalho de Scott e da fotografia de Erik Messerschmidt.
A direção segura de Scott e a divisão da narrativa
Apesar das falhas no roteiro, a direção de Ridley Scott se mostra segura, conferindo ao filme um ritmo envolvente. Uma curiosidade é a divisão clara do longa em duas partes distintas. A primeira parte é mais lenta e contemplativa, focando no cotidiano de Hig e sua relação com o cão Jasper, um elemento que o ajuda a lidar com a atmosfera desoladora.
Essa introdução, embora bem executada, pode gerar um certo desinteresse devido ao ritmo mais cadenciado. No entanto, quando Hig decide explorar novas regiões, o filme ganha um tom mais tenso e acelerado. O drama cede espaço para a ação, com referências que lembram filmes de faroeste, mostrando o domínio de Scott em transitar entre diferentes estilos sem perder o controle da narrativa.
Um elenco de peso e um cão que rouba a cena
“Ponto Sem Retorno” se destaca também pelo elenco escolhido a dedo por Scott. Jacob Elordi convence como o atormentado protagonista, demonstrando boa química com os demais. Josh Brolin brilha com seu personagem irônico e paranoico, entregando momentos de ação e humor.
Margaret Qualley tenta trazer profundidade à sua personagem, enquanto Guy Pearce diverte como o pai superprotetor. A participação de Allison Janey, embora curta, é marcante e responsável por uma das cenas mais bizarras do filme. Contudo, o verdadeiro destaque é o cão Raksha, na pele de Jasper. As cenas entre ele e Elordi são as mais poéticas, e a espontaneidade do animal encanta, tornando-se um dos pontos altos da produção.
Em suma, “Ponto Sem Retorno” poderia ter sido um filme mais intrigante com ideias mais criativas. Ainda assim, é uma obra assistível, mas que fica aquém do potencial de um cineasta como Ridley Scott, mostrando, contudo, que ele é um declarado inimigo da aposentadoria.





