Nepal Paga Conta da Crise Climática: Países Pobres Sofrem com Desastres Causados por Nações Ricas, Alerta Especialista
Uma recente avalanche de lama e gelo devastou o Nepal, reacendendo o debate sobre a injustiça climática. A tragédia, classificada como a de maior impacto econômico na história do país, expõe uma dura realidade: nações que pouco contribuíram para o aquecimento global são as mais afetadas pelos seus efeitos.
O Nepal, por exemplo, é responsável por apenas 0,05% das emissões históricas de gases de efeito estufa. Mesmo assim, o país enfrenta as consequências de um problema que não criou, levantando questionamentos sobre a responsabilidade global e a necessidade de ações concretas.
A afirmação é de Manjeet Dhakal, especialista em diplomacia climática e negociador pelo grupo dos Países Menos Desenvolvidos (PMD) nas conferências da ONU. Conforme informação divulgada em entrevista, Dhakal ressalta que países que não contribuíram em praticamente nada para a crise climática estão pagando a maior parte da conta, uma desigualdade que precisa ser enfrentada globalmente.
O Impacto Desproporcional nos Países Vulneráveis
O especialista nepalês destaca que o descumprimento de promessas de financiamento por parte dos países ricos agrava a situação. A falta de recursos compromete a capacidade de adaptação dos países mais pobres a eventos climáticos extremos, ampliando as desigualdades existentes.
Dhakal explica que, diante da ineficácia da resposta global, muitas nações vulneráveis são forçadas a redirecionar recursos destinados a necessidades básicas, como saúde e educação, para lidar com os impactos climáticos. Esse redirecionamento, segundo ele, torna esses países ainda mais pobres e aumenta seu endividamento.
Geleiras Derretendo, Desastres Aumentando
Embora a dimensão exata do papel da crise climática no desastre recente no Nepal ainda esteja sob estudo, o colapso de geleiras é uma consequência conhecida do aquecimento global. O aumento das temperaturas provoca o degelo do permafrost, tornando o gelo em grandes altitudes perigosamente instável.
O Nepal já tem um histórico de desastres relacionados ao clima. Em 2017, o rompimento de um lago glacial causou inundações. Em 2021, chuvas de monção e derretimento de neve alagaram um vale. No ano passado, uma enchente atingiu outro rio montanhoso, também afetado neste ano.
Financiamento Climático Insuficiente e Promessas Não Cumpridas
A meta global é que os países ricos financiem US$ 300 bilhões anuais para nações em desenvolvimento até 2035. No entanto, o valor originalmente pedido pelos países mais pobres era de US$ 1,3 trilhão. Uma promessa anterior de US$ 100 bilhões anuais até 2020 só foi parcialmente atingida em 2023.
Dhakal lamenta que falta de recursos não é o problema global, citando que quando se trata de guerra, os recursos aparecem. Ele espera que a tragédia no Nepal sirva como um catalisador para impulsionar a ação climática e o financiamento para países montanhosos.
Sistemas de Alerta Precoce e a Necessidade de Mais Tempo
O especialista ressalta a importância de sistemas de monitoramento e alerta precoce, que podem salvar vidas. Apesar de alguns mecanismos terem sido instalados no Nepal, o tempo de aviso para o recente desastre foi de apenas 15 minutos. Dhakal enfatiza que um aviso mais antecipado poderia ter salvado mais vidas, mesmo que não fosse possível preservar os bens materiais.
Ele conclui que a tecnologia para sistemas de alerta em geleiras e montanhas ainda precisa avançar e é extremamente cara, necessitando de apoio e cooperação internacional para operar em condições extremas. A resposta global à mudança climática, afirma, deveria funcionar sem a necessidade de “lembretes” constantes como esses desastres.





