Islândia em encruzilhada: adesão à UE em foco após declarações de Trump e conflitos geopolíticos
A Islândia, uma nação insular com menos de 400 mil habitantes, está prestes a realizar um referendo crucial neste sábado (29). A consulta popular decidirá sobre a retomada das negociações para adesão à União Europeia (UE). O processo, suspenso desde 2013, ganhou novo fôlego impulsionado pelas declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e pelas crescentes tensões geopolíticas na região do Ártico.
As bravatas de Trump, incluindo seu interesse em adquirir a Groenlândia, levantaram preocupações na Islândia. O líder americano chegou a confundir a Islândia com a Groenlândia em discursos públicos, um equívoco geográfico de centenas de quilômetros que, no entanto, parece ter catalisado o debate interno sobre o futuro do país.
A iniciativa de reabrir as discussões sobre a adesão à UE partiu do próprio governo islandês em março passado. Além da postura de Trump, a expansão da influência russa e chinesa no Ártico, uma região cada vez mais acessível devido às mudanças climáticas, também figura como um fator de preocupação para o gabinete da primeira-ministra Kristrún Frostadóttir. As informações são de Berlim.
Um país sem exército em busca de proteção
A Islândia, desde sua independência da Dinamarca em 1944, adota uma política de cooperação em segurança, oferecendo seu território estratégico em troca de proteção. Sem forças armadas próprias, o país conta com acordos bilaterais, incluindo um de cooperação com os EUA desde 1951, e é um dos 12 membros fundadores da OTAN, aliança militar ocidental criada em 1949.
Dagur Eggertsson, um dos líderes da campanha pelo “sim” à adesão e ex-prefeito de Reykjavik, ressaltou em entrevista ao site Politico que as declarações de Trump têm levado os cidadãos a refletirem sobre a posição do país no cenário internacional. Essa insegurança, aliada a outros fatores, fortalece o argumento de que a adesão à UE traria maior estabilidade e segurança.
Divisões internas e interesses econômicos moldam o debate
As pesquisas de opinião mais recentes indicam um cenário apertado, com o “sim” ligeiramente à frente, 51,3% contra 48,7%, uma diferença dentro da margem de erro. Especialistas apontam que essa divisão reflete divergências históricas na sociedade islandesa, e não necessariamente uma aproximação com as posições de Trump.
Um dos principais pontos de discórdia é o setor de pesca. A adesão à UE implicaria a adoção de regulamentações comunitárias que historicamente afastaram Reykjavik de Bruxelas. A pesca é vital para a economia islandesa, respondendo por 40% das exportações, e é um pilar da identidade cultural do país, que ainda permite a caça de baleias, prática proibida em muitos países europeus.
A questão da soberania também é central. O Parlamento islandês, o Althing, é um dos mais antigos do mundo, com origens que remontam ao ano 930. A ideia de submeter-se a novas leis e regulamentos europeus toca em um ponto sensível para uma nação com uma tradição de autogoverno tão antiga.
Pragmatismo econômico e vantagens para a UE
Por outro lado, especialmente entre os eleitores mais jovens, prevalece um pensamento pragmático focado nos benefícios econômicos. A adesão à UE poderia trazer maior estabilidade monetária, com o euro sendo mais forte que a coroa islandesa, além de uma inflação mais baixa e custos de crédito e habitação potencialmente menores.
Para a União Europeia, uma vitória do “sim” seria um resultado bem-vindo. Em um período marcado pela incerteza nas relações com os EUA de Trump e pela competição com a China, a expansão do bloco é vista como um reforço estratégico. A UE tem buscado consolidar parcerias, com acordos recentes com o Mercosul, México, Indonésia e Índia.
A Islândia já faz parte da Área Econômica Europeia (EEA), que estende o mercado comum a países não membros. Uma adesão plena, que ainda exigiria nova consulta popular após as negociações, poderia também influenciar a Noruega, outro membro da EEA, a considerar uma integração mais profunda com o bloco, um debate interno semelhante ao islandês.
A Noruega já rejeitou a adesão à UE em dois referendos passados, em 1972 e 1994. No entanto, o atual cenário geopolítico, com crescentes tensões internacionais, pode reavivar o debate pró-UE no país escandinavo, assim como tem ocorrido na Islândia. A referência ao Canadá como um possível membro, citada em um discurso no Parlamento Europeu, foi mais uma anedota para ilustrar as preocupações com as políticas de Trump, dado que apenas países europeus podem integrar o bloco.





