Mãe e filha imigrantes são detidas em hospital da Flórida após acidente de carro, vídeo viraliza
Um episódio chocante abalou a Flórida, nos Estados Unidos, quando Grace Calero, 39 anos, e sua filha Giulianna Carriel, de 19, foram detidas por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos EUA (ICE) enquanto se recuperavam de um acidente de carro em um hospital em Kissimmee. O momento da detenção foi filmado por um familiar e rapidamente se espalhou pelas redes sociais, gerando indignação e pedidos de ajuda.
As imagens mostram o desespero de Gia Calero, irmã de Grace, gritando por socorro e exigindo que os agentes apresentassem um mandado de prisão. A cena dramática expôs a vulnerabilidade da família, que havia fugido do Equador em busca de asilo devido a ameaças de gangues criminosas. O primo das detidas, Jonathan Bravo, que testemunhou o ocorrido, descreveu a situação como aterrorizante.
O caso levanta sérias questões sobre os procedimentos adotados pelo ICE e a colaboração entre agências de imigração e autoridades locais. Segundo familiares, Grace possuía autorização para trabalhar nos EUA, mas o ICE a classificou como “imigrante ilegal”, alegando que ambas haviam excedido o período permitido em seus vistos. A família, no entanto, afirma que as mulheres foram detidas enquanto ainda recebiam tratamento médico, sem que um mandado fosse apresentado.
Detenção no leito hospitalar: um cenário de desespero
O acidente ocorreu no dia 20 de agosto, quando Grace e Giulianna estavam a caminho do trabalho. O veículo em que estavam foi atingido por outro carro, resultando em ferimentos que levaram à internação em um hospital em Kissimmee. No entanto, durante a recuperação, a situação tomou um rumo inesperado e angustiante com a chegada dos agentes do ICE.
Grace foi algemada em seu quarto de hospital, enquanto sua filha, ainda deitada na cama, tentava se agarrar à mãe. O vídeo gravado por Jonathan Bravo captura os gritos de desespero de Gia Calero: “Socorro, por favor, socorro!”. A irmã das detidas também solicitou aos agentes que apresentassem um mandado de prisão, um pedido que, segundo as imagens, não foi atendido imediatamente.
A versão do ICE e a situação migratória das detidas
Um porta-voz do ICE, ligado ao Departamento de Segurança Nacional (DHS), informou que ordens de detenção foram emitidas contra Grace e Giulianna em 20 de agosto, após serem presas pelo Gabinete do Xerife do Condado de Polk devido ao acidente de trânsito. O ICE classificou as duas como “imigrantes ilegais do Equador”.
De acordo com o porta-voz, Grace entrou legalmente nos EUA em março de 2023, mas permaneceu além do período autorizado. Giulianna teria entrado legalmente em fevereiro de 2025, mas também excedeu o tempo de permanência permitido. Ambas permaneceriam sob custódia do ICE aguardando procedimentos de deportação.
Ansiedade e convulsões: o impacto na saúde de Giulianna
O trauma da detenção teve um impacto severo na saúde de Giulianna. Segundo Jonathan Bravo, ao ver sua mãe sendo levada pelos agentes, a jovem sofreu um ataque de pânico seguido de convulsões. Giulianna já lidava com quadros de ansiedade e depressão antes mesmo do acidente, o que tornou a situação ainda mais delicada.
Bravo também relatou que, em outro vídeo gravado por ele, é possível ouvir sua solicitação em inglês para que os agentes mostrassem um mandado de prisão enquanto Grace era retirada do hospital. A família contesta a forma como a detenção foi realizada, alegando que Grace foi interrogada sobre seu status migratório enquanto estava sob efeito de sedativos e com o pescoço imobilizado.
Deportação voluntária e o alívio da família
Após serem levadas do hospital para a cadeia do condado de Pinellas, Grace e Giulianna permaneceram sob custódia do ICE. No entanto, segundo relatos familiares, elas manifestaram o desejo de deportação voluntária, temendo ser enviadas para centros de detenção mais rigorosos. A família expressou alívio quando, cinco dias após a detenção, o ICE providenciou o embarque das duas em um voo de volta ao Equador.
Gia Calero confirmou à BBC News Mundo que recebeu uma ligação das duas de dentro do avião, expressando gratidão por estarem finalmente a caminho de casa. Mãe e filha chegaram a Guayaquil no dia seguinte, encerrando um capítulo traumático de suas vidas nos Estados Unidos.
Hospitais e leis: a linha tênue entre atendimento e colaboração com autoridades
Em resposta ao incidente, o hospital HCA Florida Poinciana afirmou que sua prioridade é atender todos os pacientes, independentemente de seu status migratório, e que seus funcionários se dedicam a oferecer um atendimento humanizado. Contudo, a instituição ressaltou que, como todos os hospitais, é obrigada a cumprir as leis e regulamentações que regem as interações com agentes credenciados das forças de segurança.
O Gabinete do Xerife do Condado de Polk declarou que policiais estiveram no hospital para coletar informações sobre o acidente. Durante a investigação, descobriram a situação migratória irregular da motorista e de sua filha. O ICE, então, emitiu as ordens de detenção após a alta hospitalar.
Aumento das detenções e políticas de imigração
O caso de Grace e Giulianna ocorre em um contexto de aumento nas detenções de imigrantes nos Estados Unidos. Em julho, o ICE prendeu quase 50 mil pessoas, o maior número mensal registrado durante o segundo mandato do ex-presidente Donald Trump. Texas e Flórida lideram o número de prisões, com programas como a Seção 287(g) permitindo que forças de segurança locais atuem como braços de aplicação das leis de imigração.
A política de detenções e deportações tem se expandido, incluindo prisões em aeroportos e durante abordagens de trânsito. Advogados de imigração e organizações sociais atribuem parte desse fenômeno a um memorando de entendimento entre o ICE e a Administração de Segurança nos Transportes (TSA), que facilita o compartilhamento de informações. O ICE reforça que autorizações de trabalho ou pedidos de asilo pendentes não garantem status legal nos EUA e não impedem detenções.





