Nepal intensifica buscas por centenas de trabalhadores presos em túneis após enchente no Himalaia
Equipes de resgate do Nepal estão em uma corrida contra o tempo para alcançar centenas de trabalhadores presos em túneis de projetos hidrelétricos. A tragédia, ocorrida na semana passada após uma enchente devastadora no Himalaia, já registrou um alto número de mortos e desaparecidos.
A mobilização conta com o apoio de socorristas da China e da Índia, em uma operação complexa que enfrenta grandes desafios devido à quantidade de detritos e à instabilidade do terreno. A situação dos trabalhadores presos nos túneis é a prioridade máxima das autoridades nepalesas.
Este desastre, atribuído ao colapso de uma geleira, não apenas causou perdas humanas significativas, mas também levanta questões sobre o modelo de desenvolvimento do Nepal, que tem investido pesadamente em usinas hidrelétricas nas montanhas para suprir a demanda energética do país e para exportação.
Trabalhadores presos e resgates desafiadores nos túneis
Segundo as autoridades nepalesas, ao menos 933 trabalhadores estão presos nos túneis de projetos hidrelétricos. Ainda não há informações precisas sobre quantos deles estariam vivos. As buscas concentram-se nos distritos de Rasuwa e Nuwakot, os mais afetados, onde 11 projetos foram bloqueados pela enchente.
Equipes de resgate utilizam máquinas de terraplenagem, explosões controladas e escavadeiras para remover lama e pedras, na tentativa de abrir caminho para os túneis. A iluminação artificial é utilizada durante os trabalhos noturnos, e socorristas vasculham os destroços com lanternas. Três corpos já foram recuperados após equipes adentrarem dois túneis, mas outras áreas permanecem soterradas.
O porta-voz do Exército do Nepal, Raja Ram Basnet, destacou o grande desafio imposto pela enorme quantidade de detritos. “Nosso principal foco é abrir os túneis”, afirmou à Reuters, ressaltando a complexidade da operação para chegar às vítimas.
Balanço trágico e o impacto humanitário no Nepal
O desastre, causado pelo colapso de uma geleira, já registrou 919 mortos e 4.793 desaparecidos. No Nepal, o número de mortos chega a 903, segundo a polícia, e mais 16 mortes foram registradas no lado chinês, de acordo com a imprensa estatal. A Cruz Vermelha estima que mais de 90 mil pessoas foram afetadas diretamente pela tragédia.
Em meio à busca por sobreviventes, o calor úmido nas planícies acelera a decomposição dos corpos, o que tem levado ao sepultamento de centenas de vítimas não identificadas em valas rasas. O recém-empossado primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, classificou o evento como um “desastre natural sem precedentes e devastador” e alertou para a dificuldade em mensurar o impacto total dos danos.
Vulnerabilidade do desenvolvimento hidrelétrico e estrangeiros desaparecidos
A tragédia expõe a vulnerabilidade do modelo de desenvolvimento do Nepal, que tem priorizado a construção de usinas hidrelétricas nas montanhas para combater a escassez de energia e exportar eletricidade. A geografia acidentada do Himalaia exige a perfuração de extensas redes de túneis, que se tornaram armadilhas mortais com a enchente.
O Ministério das Relações Exteriores nepalês informou que 590 estrangeiros de 39 países estão desaparecidos no Nepal. Até o momento, 323 turistas foram resgatados. Quase 100 cidadãos chineses estão incomunicáveis no lado nepalês, segundo o Ministério das Relações Exteriores da China, que enviou assistência financeira, humanitária e especialistas em engenharia de túneis.
Cooperação internacional e tensões na busca
Embora o Nepal tenha inicialmente dispensado ajuda internacional, abriu exceção para equipes da Índia e da China. No entanto, a cooperação enfrenta riscos operacionais e atritos. Funcionários nepaleses relataram que Pequim não compartilhou informações detalhadas sobre riscos glaciais e níveis de rios após reuniões bilaterais.
O regime chinês afirma ter fornecido dados meteorológicos e hidrológicos e reiterou seu compromisso em apoiar o Nepal. A agência estatal Xinhua informou que o líder Xi Jinping assegurou que a China não poupará esforços nas operações de busca. As buscas já foram interrompidas diversas vezes devido ao mau tempo e ao temor de transbordamento de um novo lago formado na fronteira, além do risco de novos desmoronamentos de geleiras instáveis na região.





