A Dificuldade Crônica dos EUA em Sair de Guerras: Uma Lição do Afeganistão para o Irã
A retirada do Afeganistão, marcada por caos e derrota, expôs uma dificuldade persistente dos Estados Unidos: a incapacidade de encerrar conflitos de forma definitiva. Essa questão, que assombrou três presidentes, levanta sérias reflexões sobre a estratégia americana em novas frentes, como a tensa relação com o Irã. A longa guerra afegã, que terminou cinco anos atrás, não impediu o ressurgimento de insurgentes e não transformou o país em um refúgio para terroristas, como temiam os formuladores de política.
Atualmente, os Estados Unidos se veem envolvidos em uma nova zona de conflito no Irã, onde as perspectivas de vitória militar parecem igualmente sombrias. Mesmo figuras como o ex-presidente Donald Trump, que expressou o desejo de sair da guerra, acabaram defendendo a permanência. A complexidade de sair de conflitos é um tema recorrente na história recente dos EUA, desde sua ascensão como potência global após a Segunda Guerra Mundial.
Conforme aponta o The New York Times, a estratégia americana muitas vezes se assemelha a um “policiamento do império”, com tropas enviadas para impor ordem ou defender valores, em vez de enfrentar conflitos existenciais. A lição do Afeganistão, onde a derrota se arrastou por anos mesmo após a morte de Osama bin Laden, serve como um alerta para as atuais decisões sobre o Irã.
A Longa Sombra do Afeganistão: Por Que Foi Tão Difícil Sair?
A guerra no Afeganistão, a mais longa da história dos EUA, apresentou desafios únicos para a saída. Mesmo após a morte de Osama bin Laden em 2011, um objetivo central da invasão, a retirada se mostrou complexa. O Talibã, longe de ser eliminado, demonstrou resiliência, e os temores de que o país se tornasse um santuário terrorista não se materializaram de forma a justificar uma permanência prolongada.
Líderes políticos e diplomáticos temiam o impacto na credibilidade internacional e os custos eleitorais de uma derrota. Essa apreensão contribuiu para a manutenção das tropas, mesmo quando a perspectiva de vitória se tornava remota. A estratégia mudou de objetivo, focando na redução de baixas e custos, e no suporte a um governo afegão impopular.
Rosemary Kelanic, diretora do programa para o Oriente Médio da Defense Priorities, comparou a situação a um “médico em uma unidade de terapia intensiva que sabe que o paciente vai morrer”. A prioridade passou a ser evitar que a derrota ocorresse sob sua responsabilidade, prolongando a guerra por mais uma década após a morte de Bin Laden, com a perda de centenas de vidas militares adicionais.
Novas Promessas, Velhos Desafios: A Questão do Irã
O secretário de Defesa, Pete Hegseth, prometeu que a guerra no Irã seria diferente das experiências no Iraque e Afeganistão, que ele descreveu como “atoleiros” onde “políticos tolos anteriores” desperdiçaram a credibilidade americana. Hegseth, que serviu nos dois conflitos, defendeu uma abordagem “focada a laser”, letal e decisiva.
No entanto, a realidade no Irã já apresenta obstáculos. O fechamento do Estreito de Hormuz pelas forças iranianas desafia a capacidade militar americana. O general Dan Caine admitiu que ataques aéreos podem não ser suficientes para derrotar o Irã ou reabrir a via marítima, destacando os “limites do poder aéreo”.
A estratégia atual se baseia em um bloqueio naval e sanções econômicas, com a esperança de pressionar o Irã. Apesar de alguns sinais de aumento no tráfego marítimo e nas exportações de petróleo, os líderes militares já não falam em vitória rápida, mas em uma campanha prolongada. Hegseth declarou que o bloqueio pode ser mantido “indefinidamente”, ecoando a persistência vista no Afeganistão.
A Luta pela Sobrevivência e a Busca por Significado na Derrota
O desafio para as Forças Armadas americanas no Irã se assemelha ao enfrentado no Afeganistão, onde o Talibã lutava pela sobrevivência. Os líderes iranianos compartilham essa determinação, enquanto os riscos e custos para os EUA parecem menores, facilitando a manutenção de um status quo indefinido.
Recentemente, Hegseth comemorou o quinto aniversário do fim da Guerra do Afeganistão condecorando militares que demonstraram bravura em meio ao caos do atentado no aeroporto de Cabul. Ele elogiou o heroísmo dos soldados, descrevendo-os como “leões diante do portão”.
A cerimônia também serviu para recontextualizar a derrota americana no Afeganistão como uma vitória dos soldados que lutaram, uma forma de preservar a imagem de uma “força letal, orgulhosa e invicta”, mesmo que a derrota do país tenha sido oficialmente omitida.





