Javier Milei cancela viagem a Londres em meio a escalada na disputa pelas Ilhas Malvinas, acendendo alerta diplomático entre Argentina e Reino Unido.
A Argentina, sob a liderança de Javier Milei, suspendeu uma planejada viagem do presidente à capital britânica, Londres, inicialmente marcada para o final de outubro. A decisão surge em um momento de acirramento das tensões diplomáticas com o Reino Unido, motivado pela antiga disputa pela soberania das Ilhas Malvinas, um território reivindicado pela Argentina há quase dois séculos.
A visita a Londres já fazia parte dos planos de Milei desde o início de seu mandato. Contudo, a viagem foi abruptamente cancelada na tarde desta quinta-feira (10), conforme informações da imprensa argentina que foram confirmadas por uma fonte do governo à Folha. A ausência de justificativas oficiais para a mudança repentina intensifica as especulações sobre os motivos por trás da decisão.
A suspensão ocorre pouco mais de uma semana após Milei realizar um pronunciamento em rede nacional, onde reafirmou enfaticamente que as Malvinas pertencem à Argentina “por história e por direito”. Na ocasião, o presidente também anunciou medidas mais rigorosas contra o que considera violações à soberania argentina sobre o arquipélago. Conforme divulgado, o governo iniciou processos para sancionar cerca de 60 empresários e companhias envolvidas na exploração de recursos naturais nas ilhas, além de anunciar denúncias criminais contra petrolíferas atuantes na região e priorizar o desenvolvimento de uma base naval em seu orçamento para 2027.
Aliados de Trump e Venda Militar: O Contexto Internacional da Disputa
Um dos fatores que podem ter influenciado a mudança de rota na diplomacia argentina foi o posicionamento de Donald Trump, um dos principais aliados de Milei. No início da semana passada, o ex-presidente americano declarou que não descartava a possibilidade de rever a postura de neutralidade que Washington adota em relação à soberania das Ilhas Malvinas. Essa abertura já havia sido especulada pela mídia americana após atritos entre Trump e o Reino Unido no início do ano, relacionados ao apoio britânico à guerra liderada pelos EUA contra o Irã.
Nesta quinta-feira, em um movimento notável, o Departamento de Estado americano aprovou uma potencial venda de helicópteros e outros equipamentos militares para a Argentina, com um valor estimado em US$ 140 milhões (aproximadamente R$ 716 milhões). Essa aprovação ocorre em um contexto de crescente tensão entre Argentina e Reino Unido.
Reino Unido Reafirma Compromisso com as Malvinas e Aumenta Verbas para Defesa
O Reino Unido, por sua vez, já respondeu à retórica de Javier Milei. Logo após o pronunciamento do presidente argentino em rede nacional, o ministro da Defesa britânico, Wes Streeting, declarou na sexta-feira (4) que o compromisso com as Ilhas Malvinas é “absoluto e inamovível”.
Na quarta-feira (9), o primeiro-ministro britânico, Andy Burnham, foi questionado no Parlamento sobre a questão. Ele afirmou que sempre respeitará o desejo dos habitantes locais. É importante lembrar que, em um referendo realizado em 2013, 99,8% da população das ilhas votou para permanecer como um território ultramarino do Reino Unido. Burnham assegurou que o país será “implacável ao defender isso” e prometeu aumentar os investimentos em defesa, declarando: “Este ministro, como todos os ministros, vai disponibilizar o dinheiro para a defesa. Este é o meu compromisso com o país”.
Desdobramentos e a Influência de Boris Johnson
A intenção do Reino Unido de aumentar seus gastos com defesa, aliás, é anterior à recente escalada de tensão pelas Malvinas. Em junho, o então primeiro-ministro Keir Starmer anunciou um plano de investimento em defesa sem precedentes desde a Guerra Fria, prevendo 15 bilhões de libras (quase R$ 104 bilhões) nos próximos quatro anos. Essa preocupação com a defesa ganhou novos contornos com a recente declaração do ex-premiê Boris Johnson em sua coluna no jornal Daily Mail. Johnson instou o governo a afirmar veementemente que as Ilhas Malvinas são britânicas e a demonstrar a viabilidade desse compromisso com o envio de reforços imediatos, argumentando que o Reino Unido precisa mostrar seu compromisso inabalável com a defesa da democracia.
Boris Johnson, que visitou Milei em 2024 durante uma viagem pela região para promover suas memórias, descreveu o presidente argentino como “anglófilo e thatcherista”, referindo-se à admiração de Milei por Margaret Thatcher, primeira-ministra do Reino Unido durante a Guerra das Malvinas em 1982. Johnson expressou a crença de que Milei não deseja um confronto com o Reino Unido, mas pode sentir a necessidade de inflamar o sentimento público de forma nacionalista em meio a uma difícil campanha de reeleição.





