O legado complexo do Acordo de Paz: da guerrilha ao Congresso e os desafios da política institucional
Luis Alberto Albán Urbano, que ingressou nas Farc aos 20 anos, viveu a transição de combatente para político. Após décadas de luta armada, ele se tornou deputado em 2018, simbolizando a entrada do grupo na política institucional. A jornada, no entanto, revela os desafios enfrentados pelas Farc na arena eleitoral após a assinatura do Acordo de Paz em 2016.
A entrega das armas e a criação do partido Comunes (anteriormente Força Alternativa Revolucionária do Comum) foram marcos do acordo. Contudo, as eleições legislativas de 2026 evidenciaram a fragilidade eleitoral da legenda, que não conseguiu eleger nenhum representante, registrando seu pior desempenho desde a fundação.
Apesar do declínio eleitoral, o Acordo de Paz é visto como um catalisador para a ascensão da esquerda no país. O ex-deputado Albán destaca que o pacto abriu portas para o governo de Gustavo Petro, o primeiro de esquerda na história recente da Colômbia. Essa perspectiva é compartilhada por especialistas, que ressaltam a esperança de mudança gerada pelo acordo.
A difícil caminhada eleitoral dos ex-guerrilheiros
Desde a participação nas eleições de 2018, sob a sigla das Farc, o grupo enfrentou obstáculos. Naquele ano, o partido não conseguiu lançar candidato à Presidência, e o último líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, retirou sua candidatura. Nas legislativas, o partido obteve pouco mais de 85 mil votos, garantindo assentos no Congresso apenas pelas dez cadeiras reservadas pelo acordo.
Em 2022, o cenário eleitoral se manteve desfavorável, com ainda menos simpatizantes. A situação se agravou em 2026, quando o fim das reservas de assentos levou à não eleição de nenhum representante. Nas eleições locais de 2019, o grupo conquistou 96.447 votos, número que despencou para 13.772 em 2023, uma redução de 85,7%.
A mudança de nome para Comunes, em 2021, visou mitigar a estigmatização, mas não reverteu a tendência de queda. Albán explica que a alteração buscou preservar os ideais do grupo, apesar das dificuldades de adaptação à política civil.
Contrastes históricos e os desafios da transição
Em contraste com o cenário colombiano, outras guerrilhas latino-americanas obtiveram maior sucesso político e eleitoral. O Movimento 26 de Julho em Cuba e a Frente Sandinista na Nicarágua chegaram ao poder após suas revoluções. No Uruguai, os Tupamaros se integraram a um partido que elegeu o ex-presidente José Mujica. Em El Salvador, a FMLN se consolidou como segunda força política antes de chegar à Presidência em 2009.
A Colômbia já havia presenciado uma tentativa de transição política em 1985 com a União Patriótica, formada pelas Farc e outros grupos de esquerda. O partido chegou a ser a terceira força política em 1986, mas seus membros eleitos foram alvo de assassinatos, o que levou à desarticulação do projeto.
O legado do Acordo de Paz: mais que votos, um novo cenário político
Apesar da inexperiência e das disputas internas sobre a estratégia de mobilização civil, Albán considera a participação no Congresso como um avanço. Ele destaca a luta pela implementação integral do Acordo de Paz, mesmo sob a Presidência de Iván Duque, crítico das negociações. A expectativa de maior apoio durante o governo Petro, no entanto, não se concretizou totalmente.
Ángela Liliana Olaya Castro, diretora da Fundação Conflict Responses, aponta que muitas pessoas deixaram o partido em busca de novas formas de participação política, com propostas mais territoriais. Ela sugere que o número de votos não é o único indicador de sucesso do pacto, enfatizando a importância da participação em outros contextos políticos, como as Juntas Administradoras Locais, que concentraram 26,3% da votação total dos Comunes em 2023.
Albán conclui que o reconhecimento do partido como ator político, com representação no Congresso por dois mandatos, é um ganho, mesmo que não se traduza diretamente em votos. O Acordo de Paz, portanto, reconfigurou o cenário político colombiano, abrindo espaço para a esquerda e promovendo debates sobre paz e reconciliação, mesmo diante dos desafios persistentes na consolidação da democracia e na participação política dos ex-combatentes.





