A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) deu um passo histórico ao denunciar o Irã ao Conselho de Segurança da ONU, marcando a primeira vez em duas décadas que tal medida é tomada. A decisão, impulsionada pelos Estados Unidos e seus aliados europeus, visa aumentar a pressão sobre Teerã em relação ao seu programa nuclear e à falta de transparência exigida.
A resolução, aprovada pelo Conselho de Governadores da AIEA com 23 votos a favor, 8 abstenções (incluindo o Brasil) e 3 votos contra (Rússia, China e Níger), sinaliza uma escalada nas tensões diplomáticas. Embora a AIEA não possua poderes de sanção, o encaminhamento da queixa ao Conselho de Segurança da ONU eleva o debate a um fórum de maior impacto político, apesar dos desafios impostos pelo poder de veto de Rússia e China.
O Irã, por sua vez, reagiu com descontentamento, classificando a resolução como resultado de “atos criminosos de agressão pelos EUA e pelo regime israelense”. Teerã alega que a busca americana por um “objetivo ilusório” visa forçar a rendição do país e a apropriação de seu petróleo, em um contexto de crescentes confrontos no estreito de Hormuz.
A falta de inspeções da AIEA nas instalações nucleares iranianas é o cerne da questão. Tais inspeções são fundamentais tanto para a adesão do país ao Tratado de Não Proliferação Nuclear quanto para as provisões do acordo de 2015, do qual os EUA se retiraram em 2018. Desde então, o Irã acumulou uma quantidade significativa de urânio enriquecido, estimada em 440,9 kg a 60%, material suficiente para a fabricação de ogivas nucleares rudimentares, conforme dados da AIEA.
Aceleração do Programa Nuclear Iraniano Sob Escrutínio
Novas imagens de satélite divulgadas pelo Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) dos EUA indicam um ritmo acelerado de obras nas principais instalações nucleares do Irã, especialmente na montanha da Picareta, perto de Natanz. Estes locais abrigam laboratórios e centrífugas para enriquecimento de urânio. A expansão observada levanta preocupações sobre a possível aceleração do programa nuclear iraniano.
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, enfatizou a importância das inspeções para garantir que o país não esteja desenvolvendo armas nucleares. Ele mencionou que o Irã acumula estoques de urânio enriquecido sem fiscalização adequada, especialmente após os ataques pontuais de 2025 e 2026, que continuam o conflito neste ano. Grossi nega as alegações iranianas de conluio com os EUA.
Histórico de Tensões e Acusações Mútuas
O Irã justifica a dificuldade nas inspeções devido ao estado de guerra, criando um impasse. O país já havia ameaçado retaliar caso a resolução fosse aprovada, mas optou por criticar seus termos. As acusações iranianas direcionadas aos EUA e Israel remetem a um histórico de conflitos e desconfiança mútua na região.
A AIEA também aprovou o encerramento de investigações sobre o não cumprimento de obrigações nucleares pela Síria. Após um programa secreto durante a ditadura de Bashar al-Assad, que foi alvo de um ataque israelense em 2007 e declarado em violação pela AIEA em 2011, o governo sírio, agora sob nova liderança após a queda de Assad em 2024, satisfez as exigências da agência.
O Impacto da Guerra no Programa Nuclear
A guerra em curso, iniciada em fevereiro, intensificou as trocas de fogo entre Irã e Israel, especialmente no estreito de Hormuz. Este cenário de instabilidade global e regional adiciona camadas de complexidade à questão nuclear iraniana. A retirada dos EUA do acordo de 2015, promovida pelo governo de Donald Trump, é vista pelo Irã como um fator determinante para a atual situação.
A possibilidade de o Irã desenvolver armas nucleares é uma preocupação global. A quantidade de urânio enriquecido a 60% já é significativa, e o aumento para 90% poderia armar até dez bombas de plena capacidade. A AIEA busca, através da pressão diplomática e da exigência de transparência, evitar que o país persa se torne uma potência nuclear.





