Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors
Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

Álbum de Figurinhas das Mães da Praça de Maio Revela Parente Desaparecido na Ditadura Argentina

Álbum de Figurinhas das Mães da Praça de Maio Revela Parente Desaparecido na Ditadura Argentina

A iniciativa de Ariel Cuadra de criar um álbum de figurinhas em homenagem às Mães e Avós da Praça de Maio, com o objetivo de promover encontros e discussões sobre a luta por memória, verdade e justiça, tomou um rumo inesperado e profundamente pessoal.

O artista gráfico argentino não imaginava que seu projeto, inspirado pela popularidade dos álbuns durante a Copa do Mundo, traria à tona uma história de desaparecimento dentro de sua própria família, conectando gerações à memória da ditadura argentina.

A descoberta ocorreu quando o pai de Cuadra, tocado pela comoção gerada pelo álbum, decidiu compartilhar uma história guardada por anos: a de um parente detido e desaparecido durante o regime militar. Essa revelação marcou o início de uma nova jornada para a família Cuadra, conforme divulgado em reportagens sobre o caso.

A Busca por Roberto Castillo

O parente em questão é Roberto Castillo, trabalhador e membro da Juventude Peronista, que tinha 40 anos quando foi levado de sua casa em Almirante Brown, na região metropolitana de Buenos Aires, na noite de 12 de janeiro de 1977. Ele era tio-avô de Ariel Cuadra, irmão de sua avó paterna.

Segundo o relato de Martí­n, filho de Roberto, militares invadiram a residência e, após uma revista inicial sem sucesso, retornaram ao local. Um vizinho mencionou o sobrenome Castillo, levando os soldados a arrombarem a porta da casa. Durante a ação, a cadela da família, Niki, foi morta a tiros por um policial.

“Eu vi eles quebrando coisas, virando colchões de cabeça para baixo, revirando a cozinha. Foi horrível vê-los destruir nossa casa. Lembro que meu pai estava calmo, usando bermuda e chinelos, com uma jaqueta vermelha. Eles o algemaram com aquela jaqueta vermelha e o levaram embora”, relatou Martí­n, na época com 8 anos, segundo documento da Comissão pela Memória.

A Longa Espera pela Verdade

A promessa de que Roberto Castillo seria liberado em 24 horas não se cumpriu, e a família nunca mais o viu. Somente em 2009, seus restos mortais, enterrados sem identificação no Cemitério de Avellaneda, foram exumados e identificados. Desde 2012, uma rua em Almirante Brown leva o nome de Roberto Castillo, um reconhecimento tardio à sua memória.

“Foi a partir da criação deste álbum que começamos a construir nossa própria história familiar”, afirma Cuadra. Ele expressa a esperança de que sua iniciativa possa inspirar outras famílias e comunidades a buscarem suas próprias narrativas e a se conectarem com a memória coletiva.

O Poder da Comunicação Visual e da Memória Coletiva

A ideia do álbum surgiu em abril, quando Cuadra observou o impacto cultural dos álbuns de figurinhas, especialmente em tempos de Copa do Mundo. O projeto tem recebido apoio entusiasmado de educadores, que planejam utilizá-lo como ferramenta pedagógica para abordar temas como direitos humanos, memória, verdade e justiça, as mesmas bandeiras levantadas pelas Mães e Avós da Praça de Maio.

O uso da estética de álbuns de figurinhas para causas sociais não é inédito. Em 2022, uma ONG colou imagens de pessoas em situação de rua em muros de São Paulo, e no México, familiares de desaparecidos produziram cartazes em formato de figurinhas. As próprias Mães e Avós da Praça de Maio já são um exemplo de sucesso em comunicação visual, com o lenço branco se tornando um símbolo nacional reconhecido internacionalmente.

O lenço branco, que se tornou um ícone, remete às fraldas de pano dos filhos e netos desaparecidos e serviu inicialmente para que as ativistas se identificassem em um contexto de clandestinidade. A tradição das marchas na Praça de Maio, iniciada em 30 de abril de 1977, completa agora mais de 2.500 edições, um testemunho da persistência na busca por justiça.

O Legado das Mães e Avós e o Futuro do Projeto

Além das Mães e Avós, a luta pela memória é continuada pelos grupos Hijos (Filhos e Filhas pela Identidade e pela Justiça e contra o Esquecimento e o Silêncio) e pelos Netos. O grupo Hijos apoiou o lançamento do álbum, disponível gratuitamente em PDF, e planeja expandir o projeto digitalmente para incluir mais histórias.

O álbum conta com 20 figurinhas, sendo 16 dedicadas às mães e avós e quatro a fotos históricas das marchas. Cada figurinha traz informações sobre os filhos ou netos desaparecidos e o status de suas mães ou avós: se foram sequestradas, se continuam na luta ou se já faleceram. Atualmente, 11 delas já se juntaram à “eternidade”.

Estela de Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, enfatizou a importância do engajamento dos netos na continuidade da busca. “É preciso continuar buscando os que faltam”, declarou a ativista de 95 anos, ressaltando a necessidade de manter viva a memória e a luta por justiça.

Veja também

Newsletter

Assine nossa newsletter e fique por dentro das novidades!

Mais Vistos