O mundo vive um aumento alarmante de conflitos armados, com 2025 registrando o maior número de confrontos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O cenário é de crescente violência, com um aumento expressivo de ataques contra civis e um número de mortes que coloca o ano entre os mais letais da história recente.
Um novo relatório divulgado pelo Instituto de Pesquisa sobre a Paz de Oslo (Prio) acende um sinal vermelho para a segurança global. O estudo, intitulado “Conflict Trends”, aponta que em 2025 foram registrados 65 conflitos envolvendo ao menos um Estado, um patamar não visto desde 1946.
O levantamento também destaca um aumento preocupante nos confrontos diretos entre países, que dobraram em relação ao ano anterior, totalizando oito episódios. Esse dado, por si só, já representa um recorde nas últimas oito décadas, evidenciando uma escalada nas tensões internacionais e a fragilidade da diplomacia global.
As informações apresentadas pelo Prio são baseadas em dados do Programa de Dados de Conflitos de Uppsala (UCDP), uma referência internacional na sistematização de informações sobre violência organizada. O relatório completo foi divulgado nesta terça-feira (9) e detalha os principais fatores que contribuem para este cenário preocupante.
Escalada na Intensidade e Impacto Humanitário Devastador
Além da expansão quantitativa, o estudo aponta para uma escalada na intensidade dos conflitos e seus impactos humanitários. Em 2025, cerca de 245 mil pessoas morreram em decorrência direta de combates ou violência política. Este número torna o ano o terceiro mais letal desde o fim da Guerra Fria.
Um dos aspectos mais alarmantes é o aumento acentuado de ataques deliberados contra civis. Aproximadamente 76,5 mil mortes foram atribuídas a esses ataques, um salto drástico em relação às 14,2 mil registradas em 2024. A guerra no Sudão, com cercos e massacres na região de Al-Fashir, no Darfur, é apontada como um dos principais fatores por trás desse trágico aumento, com cerca de 60 mil mortes.
Crises Simultâneas e Enfraquecimento da Cooperação Internacional
A pesquisadora Siri Aas Rustad, responsável pelo relatório, descreve o cenário como chocante e sem muitos aspectos positivos. Ela ressalta que os dados de 2025 rompem com padrões de melhora relativa observados em décadas anteriores, indicando uma nova e mais perigosa dinâmica global. Desde o fim da Guerra Fria, apenas 2021 (conflito no Tigré, Etiópia) e 1994 (genocídio em Ruanda) registraram níveis mais altos de mortes.
O relatório destaca a coexistência de vários grandes conflitos simultaneamente, que parecem se suceder sem interrupção. Essa é uma característica distintiva do período atual, diferentemente das décadas passadas, quando houve anos sem conflitos entre Estados. O nível elevado e contínuo de confrontos em diferentes regiões do planeta é uma marca do cenário atual.
Principais Conflitos e Tensões Globais em 2025
Entre os conflitos interestatais identificados em 2025, o relatório menciona as tensões renovadas entre Índia e Paquistão, disputas entre Afeganistão e Paquistão, confrontos na fronteira entre Camboja e Tailândia, a guerra na Ucrânia após a invasão russa e operações militares de Israel na Síria. A escalada mais ampla no Oriente Médio, envolvendo Israel, Irã e grupos armados aliados, também contribui para a instabilidade persistente.
Além dos casos mais visíveis, o estudo chama atenção para situações frequentemente negligenciadas, como os conflitos ligados a grupos criminosos no Haiti e a violência pós-eleitoral na Tanzânia, que possuem alto impacto local, mas menor cobertura internacional.
Mudanças Estruturais no Sistema Internacional Agravam a Situação
O relatório aponta para mudanças estruturais no sistema internacional que contribuem para a intensificação dos conflitos. O enfraquecimento de mecanismos multilaterais e o aumento da polarização entre países são fatores cruciais. A pesquisadora Rustad aponta o papel relevante dos Estados Unidos nesse processo, tanto por sua atuação direta em conflitos quanto por políticas econômicas que ampliam tensões, como barreiras comerciais.
“Estamos reduzindo a colaboração. O Conselho de Segurança não está funcionando. Caminhamos para um mundo muito mais polarizado”, afirmou Rustad. O relatório também destaca a atuação de Israel em múltiplos cenários como um fator de agravamento regional, citando operações militares em Gaza, Síria e Líbano, além de tensões com o Irã e os rebeldes houthis do Iêmen.
África Lidera o Número de Conflitos, com Europa em Último Lugar
Geograficamente, a África permanece como a região com maior número de conflitos envolvendo Estados, com 29 casos registrados em 2025. Em seguida aparecem Ásia, Oriente Médio, Américas e, por último, Europa. Esse conjunto de dados reforça a avaliação de que o sistema internacional atravessa um período de instabilidade prolongada, marcado pela sobreposição de crises e pela dificuldade de construção de soluções diplomáticas eficazes.





