Governos de direita na América do Sul enfrentam realidade após vitórias eleitorais, e investidores reduzem exposição.
As fortes altas dos mercados financeiros, que foram impulsionadas por vitórias eleitorais em toda a América Latina, começam a mostrar sinais de fragilidade. Investidores demonstram dúvidas sobre manter suas posições ou realizar lucros, à medida que as promessas de campanha esbarram nas dificuldades de governar.
Na Colômbia, após a eleição do presidente Abelardo de la Espriella, a moeda disparou e as ações subiram mais de 20%. Contudo, poucos meses após a posse, os ganhos perderam força. O líder de direita enfrenta o que seus assessores descreveram como a pior crise fiscal do país desde o século XIX.
No Chile, a alta das ações que atingiu níveis recordes após a eleição do presidente ultradireitista Jose Antonio Kast, há 11 meses, também perdeu fôlego. As dificuldades de líderes de extrema direita no Peru, Equador e Argentina em manter a popularidade e avançar em suas agendas servem de alerta para investidores que apostam no Brasil.
Conforme informação divulgada por fontes do mercado financeiro, alguns gestores, como o fundo de hedge Frontier Road e a Fidelity International, já reduziram sua exposição à região. Outros, no entanto, mantêm suas apostas. Eric Fine, da VanEck, que mantém uma posição de alta em títulos da dívida brasileira em moeda local, vê potencial para mais ganhos, mas teme que estes sejam limitados pelos desafios fiscais do Brasil.
Desilusão pós-eleitoral: O que os investidores temem
Matthew Graves, gestor de portfólio da PPM America, comentou que “há, sem dúvida, riscos de que essa euforia inicial dê lugar à desilusão”. Ele ressalta que as “eleições de mudança” foram motivadas mais pela rejeição ao status quo do que por um apoio expressivo a políticas como a austeridade fiscal.
Por mais de um ano, operadores investiram em ativos da América Latina, atraídos por avaliações interessantes e pela expectativa de uma guinada política à direita. Essa especulação levou um índice MSCI que acompanha ações latino-americanas a acumular alta superior a 70% desde o início do ano passado.
No entanto, o entusiasmo que impulsionou esses ganhos começa a diminuir. Títulos em dólar do Equador e do Peru, países que elegeram presidentes favoráveis ao mercado nos últimos anos, caíram mais de 3% nos últimos três meses. Martin Bercetche, da Frontier Road, reduziu quase todo o seu investimento na América Latina após mais de 18 meses com uma visão otimista.
Equador e Peru: Sinais de alerta para o mercado
A popularidade do equatoriano Daniel Noboa, impulsionada por políticas de linha dura contra o crime, inicialmente o ajudou a obter capital político para reformas fiscais. Contudo, seu índice de aprovação despencou, e o restabelecimento de subsídios aos combustíveis pressionou os títulos equatorianos em dólar.
No Peru, a presidente Keiko Fujimori viu sua popularidade cair poucos meses após o início de seu mandato, em meio a preocupações crescentes com a economia e a criminalidade. Esses cenários indicam a rapidez com que o capital político pode se dissipar, lançando uma sombra sobre o Brasil.
Um próximo teste será a Argentina, onde o enfraquecimento da popularidade de Javier Milei já inquieta investidores. Preocupações com o crescimento econômico desigual, a fragilidade do mercado de trabalho e as consequências de sua política de austeridade sobre os eleitores têm levado os rendimentos dos títulos soberanos a patamares elevados novamente.
Brasil na mira: O que esperar do futuro
Se o próximo líder do Brasil focar em trabalhar com o Congresso e aprovar um orçamento público mais austero, ativos de risco no país poderão gerar retornos de dois dígitos nos próximos 12 meses. Contudo, se houver um foco maior em outras prioridades políticas, essa alta poderá ser de curta duração.
Flávio Bolsonaro, caso eleito, se beneficiaria de um Congresso com maioria de direita. No entanto, há dúvidas consideráveis sobre os próximos passos. Eamon Aghdasi, analista de dívida soberana, avalia que é cedo para concluir que os eleitores da região exigem ortodoxia econômica.
“Os investidores buscam alguma combinação de melhora no desempenho fiscal e estabilidade política, e não creio que ainda tenhamos evidências de nenhuma das duas”, afirmou Aghdasi. A redução da euforia mostra a rapidez com que o otimismo do mercado pode se dissipar, levantando questões sobre a sustentabilidade dos investimentos na América do Sul.
Desafios fiscais e políticos moldam o cenário para investidores
A Colômbia demonstra sinais de progresso, com autoridades confiantes de que sua proposta de reduzir o déficit fiscal em mais de 4 pontos percentuais até 2030 receberá apoio legislativo. Essa é uma notícia positiva para a estabilidade econômica da região.
A incerteza política e os desafios fiscais continuam sendo os principais fatores de preocupação para os investidores. A dinâmica entre as promessas de campanha e a realidade da governança dita o ritmo do mercado na América do Sul.
A volatilidade observada nos mercados reflete a complexidade da transição política e econômica em diversos países. A capacidade dos governos em implementar reformas eficazes e manter a estabilidade será crucial para atrair e reter investimentos no futuro.





