Medea Benjamin, voz do pacifismo, analisa o fim da URSS e o papel da OTAN no cenário global atual.
Mais de três décadas após o fim da União Soviética, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) continua ativa, mas, segundo a escritora pacifista americana Medea Benjamin, a aliança militar já perdeu sua razão de existir. Benjamin defende que a OTAN deveria ter sido dissolvida em 1991, com o fim da URSS, mas, ao contrário, seguiu um caminho que, em sua visão, a leva a um processo de esgotamento.
Benjamin, renomada ativista e autora de diversos livros sobre política externa e conflitos globais, é cofundadora da organização pacifista e feminista CodePink. Sua trajetória é marcada por críticas contundentes às intervenções militares promovidas pelos Estados Unidos. Ela estará no Brasil para participar da Festa Literária Pirata das Editoras Independentes (Flipei) e lançar seus livros “Otan: O Que Você Precisa Saber” e “Por Dentro do Irã: A Verdadeira História Política da República Islâmica”.
Em entrevista recente, Benjamin detalhou sua visão sobre o cenário internacional, com um foco especial na crítica ao militarismo em ascensão, que tem dominado a agenda do governo republicano de Donald Trump. A autora aponta para a complexidade das relações internacionais e a necessidade de repensar o papel das alianças militares em um mundo em constante transformação.
O Irã em face da pressão americana
Sobre a situação atual do Irã, Benjamin observa que o regime se encontra fortalecido por conta do recente conflito. Ela explica que muitos iranianos, que antes eram opositores do governo, agora sentem a necessidade de se unir diante da ameaça do governo Trump, que chegou a falar em “varrê-los do mapa”.
A escritora critica a postura de certos grupos, especialmente na diáspora iraniana, que apoiam o retorno do xá e chegam a sugerir que o povo iraniano deseja bombardeios. “Como é possível dizer que as pessoas querem ser bombardeadas,”, questiona Benjamin, ressaltando que os ataques, ao invés de derrubar o governo, tornam a vida da população mais difícil, apesar de os iranianos estarem preparados para um conflito prolongado.
Benjamin acredita que Trump interpretou mal o poder do regime iraniano internamente. Ela sugere que o presidente americano agiu de forma impulsiva, possivelmente influenciado por conselheiros como Benjamin Netanyahu, e ignorou informações de agências de inteligência que alertavam sobre a inviabilidade de tal ação. Essa postura coloca Trump em uma situação difícil, buscando reverter os efeitos de sua decisão.
A OTAN em declínio e o futuro da segurança global
A autora pacifista expressa dúvidas sobre o futuro da OTAN. Ela aponta que, embora Trump pressione os membros a aumentar os gastos militares, a população europeia enfrenta dificuldades para manter serviços essenciais como a saúde. Há uma resistência crescente a esse aumento de despesas militares, em parte alimentada por uma campanha de propaganda que busca incutir medo de uma possível agressão russa a outros países europeus, o que Benjamin considera “ridículo”.
Benjamin reitera sua posição de que a OTAN deveria ter se dissolvido em 1991. Na sua visão, o fim da União Soviética seria o momento ideal para que países europeus e a Rússia colaborassem para construir um futuro baseado na cooperação. Em vez disso, a OTAN se fortaleceu e se envolveu em conflitos externos, tornando-se uma aliança militar mais agressiva.
A escritora prevê que a OTAN eventualmente se dissolverá, embora não seja possível determinar quando. Ela acredita que a Europa, dada sua localização geográfica, eventualmente buscará um “modus vivendi” com a Rússia, mesmo com o apoio atual à Ucrânia.
O papel da ONU e a busca por um mundo multipolar
Medea Benjamin descreve o período atual como “vergonhoso” para as Nações Unidas, destacando a incapacidade e a falta de vontade da organização em resolver conflitos. Ela aponta o desequilíbrio estrutural do Conselho de Segurança, com o poder de veto dos cinco membros permanentes, como um dos principais entraves. A ONU, segundo ela, é disfuncional e tem sido incapaz de atuar efetivamente na resolução de crises, especialmente no Oriente Médio.
Benjamin também critica os esforços dos Estados Unidos para minar instituições da ONU que defendem o Estado de Direito, como o Tribunal Penal Internacional. Ela vê um cenário propício para o surgimento de novas lideranças globais e defende a formação de alianças regionais fortes na América Latina, Ásia e África, como forma de construir um sistema multipolar que resista à influência indevida de potências externas, sejam elas os EUA ou a China.
A ativista aconselha os governos a não verem os Estados Unidos como um país estável, recomendando a formação de diversas alianças que sirvam como contrapeso ao poder americano. Para Benjamin, é fundamental que a América Latina, a Ásia e a África afirmem sua soberania e construam um poder continental que não permita interferências externas em seus assuntos internos.





