Apostas online: um novo e potente motor do endividamento familiar no Brasil
O cenário financeiro das famílias brasileiras está passando por uma transformação preocupante, com as apostas online, conhecidas como bets, emergindo como um fator de endividamento mais significativo do que os juros e o crédito, tradicionalmente vistos como os principais vilões. Um estudo recente aponta para uma mudança drástica no comportamento financeiro, onde a adrenalina das apostas pode estar comprometendo a saúde financeira de muitos lares.
A pesquisa, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School, indica que o crescimento das apostas online tem um impacto quase duas vezes maior no endividamento familiar do que os altos níveis de juros e a facilidade de acesso ao crédito. Essa constatação lança luz sobre um novo risco de crédito que exige atenção.
Diante desse quadro, torna-se essencial compreender as dimensões desse fenômeno e seus reflexos diretos no orçamento das famílias. A análise aprofundada deste estudo, realizada a pedido do Senado e publicada em agosto de 2024 pelo Banco Central, oferece dados cruciais para entender o perfil dos apostadores e as consequências de suas escolhas financeiras. Conforme divulgado pelo estudo do Ibevar e FIA, para cada aumento de 1% em apostas, o endividamento cresce 0,23%.
O Gigante Mercado de Apostas Online no Brasil
Desde sua legalização em 2019, o mercado de bets no Brasil experimentou um crescimento vertiginoso, consolidando-se como um fenômeno econômico de massa. Em 2025, estima-se que os sites de apostas registraram impressionantes 26,4 bilhões de acessos, gerando um faturamento de R$ 50,9 bilhões, de acordo com dados da plataforma Aposta Legal. Essa escala posiciona as apostas como o segundo destino mais visitado na internet brasileira, superado apenas pelo Google.
Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Ibevar e professor da FIA, destaca que as apostas online deixaram de ser um nicho para se tornarem uma cultura de massa, com um aumento de interesse superior a dez vezes em apenas quatro anos. Essa rápida expansão levanta bandeiras vermelhas sobre seu impacto financeiro em larga escala.
Perfil dos Apostadores: Jovens e Idosos em Risco
Um estudo especial do Banco Central, realizado a pedido do Senado, traçou um perfil dos apostadores brasileiros. A maior concentração de apostadores está na faixa etária de 20 a 30 anos, com um gasto médio mensal de aproximadamente R$ 100. No entanto, o cenário mais alarmante se revela entre os usuários com mais de 60 anos, onde o gasto médio ultrapassa os R$ 3 mil por mês.
Esse alto dispêndio na terceira idade representa um risco concreto à segurança financeira durante a aposentadoria. Um estudo norte-americano, citado na pesquisa, aponta que a persistência nas apostas leva à alavancagem financeira, com a probabilidade de um indivíduo continuar apostando após a primeira experiência variando entre 50% e 60%.
O Padrão Americano de Apostas se Replica no Brasil
A experiência dos Estados Unidos serve como um alerta para o Brasil. Após a derrubada da proibição de apostas esportivas em 2018 pela Suprema Corte americana, o volume apostado saltou de US$ 1,1 bilhão por mês em 2019 para US$ 13,8 bilhões em 2025, um crescimento de 1.154%. O Brasil está replicando esse padrão em tempo real, com a mesma velocidade observada nos EUA, segundo o Ibevar e a FIA Business School.
O relatório técnico das instituições brasileiras aponta que a legalização das apostas nos EUA reduziu os depósitos em corretoras em cerca de 14%, indicando uma substituição de investimentos por apostas. “Esse desvio é permanente, não temporário. É uma mudança no comportamento financeiro das famílias”, afirma Felisoni. Nos EUA, para cada dólar apostado, cerca de 20 centavos deixam de ser depositados em contas de corretoras.
Bets Afetam Orçamento, Investimentos e Crédito, Gerando Vulnerabilidade
As apostas online não apenas competem por espaço no orçamento familiar, mas também reduzem sistematicamente os depósitos em investimentos e aumentam a dependência de crédito para despesas correntes. O estudo do Ibevar e FIA ressalta que as apostas criam um “escoamento sistemático que obriga o uso de crédito para despesas correntes”.
Felisoni conclui que o crescimento acelerado do mercado de bets é um fator macroeconômico com potencial para ampliar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico a médio e longo prazo. O cenário mais crítico envolve beneficiários do Bolsa Família, onde 5 milhões de pessoas apostaram, enviando R$ 2 bilhões para plataformas em um único mês, o que representa 1% do orçamento anual do programa.
Arrecadação Fiscal com Apostas: Uma Ilusão?
Apesar da drenagem financeira, o governo arrecadou R$ 8,82 bilhões com jogos de azar e casas de apostas entre janeiro e novembro de 2025, segundo a Receita Federal. Contudo, essa receita tributária pode ser uma ilusão fiscal. Pesquisadores americanos indicam que os ganhos imediatos do estado tendem a ser parcialmente anulados pela redução de impostos sobre ganhos de investimento, devido à migração de capital de contas de investimento para apostas.
Em paralelo, há uma tendência de aumento de custos públicos com o estresse financeiro das famílias, impactando a saúde mental, programas de insolvência e assistência social. Esses custos adicionais podem, em última instância, anular os ganhos tributários obtidos com o mercado de apostas online, gerando um quadro financeiro complexo e desafiador para o país.





