Bolívia vive caos com protestos massivos que já derrubaram três ministros e exigem renúncia do presidente Rodrigo Paz
Ruas vazias, aulas virtuais e a falta de itens básicos como alimentos, combustíveis e medicamentos transformaram La Paz em uma cidade sitiada. O que poderia parecer um cenário de lockdown pandêmico, é a realidade boliviana em 2026, após um mês de intensos protestos que paralisaram o país.
As manifestações, iniciadas com uma greve em maio, evoluíram para bloqueios generalizados de estradas, impactando o cotidiano e a economia. A situação é agravada por um saldo de dez mortos, incluindo vítimas que não receberam atendimento médico devido à paralisação, conforme relatos.
Rodrigo Paz assumiu a presidência em meio a uma grave crise econômica, com escassez de dólares e combustível, além de recessão e alta inflação. Sua ascensão marcou o fim de duas décadas de governos de esquerda, mas suas políticas já geram forte insatisfação popular, conforme informações divulgadas pela agência EFE.
Profundas Divisões Étnicas e Políticas no Coração dos Protestos
As manifestações na Bolívia expõem feridas históricas e dinâmicas políticas complexas. Uma delas é a **questão étnica**, descrita como uma “ferida colonial” entre o mundo indígena e o mundo branco, que, apesar da Constituição de 2009 que estabeleceu um Estado plurinacional, ainda não cicatrizou. Essa tensão emerge em momentos cruciais, manifestando-se de forma radical, como ocorre atualmente.
Outro fator determinante é a **polarização política** que historicamente divide a esquerda em La Paz e a direita em Santa Cruz de La Sierra. Embora Rodrigo Paz tenha quebrado esse padrão ao ser eleito com apoio de redutos de Evo Morales, sua aproximação com lideranças empresariais de Santa Cruz e a eliminação de impostos para grandes fortunas foram vistas por parte da população como uma traição.
Essa percepção de distanciamento do presidente de sua base eleitoral foi sintetizada por Mario Argollo, secretário executivo do Centro Operário Boliviano, que afirmou que o governo “esqueceu de sua base eleitoral”. Os manifestantes, compostos por sindicatos, professores, mineiros, organizações indígenas e movimentos sociais, representam grande parte dos setores de esquerda do país.
Bloqueios Generalizados e o Impacto Devastador na Sociedade
A estratégia de **bloqueios de estradas** tornou-se uma marca registrada dos protestos bolivianos, e o cenário atual não é diferente. O número de bloqueios saltou de 12 no início de maio para mais de 90, espalhando-se por sete dos nove departamentos do país. Essa tática, embora comum, tem gerado ampla rejeição pública devido ao seu radicalismo.
Relatos indicam que os protestos têm **bloqueado até mesmo insumos essenciais e ambulâncias**, resultando em mortes por falta de atendimento médico. Uma menina de 12 anos com câncer é uma das vítimas fatais citadas, um fato que chocou a nação e intensificou a crítica aos manifestantes.
As demandas iniciais, focadas em questões econômicas como reajustes salariais e oposição à privatização do lítio, agora secundarizaram frente ao clamor generalizado por “renúncia, Paz”. Especialistas apontam que parte dos manifestantes demonstra impaciência e recusa o diálogo, focando exclusivamente na saída do presidente.
Consequências Econômicas e Políticas: Um País à Beira do Colapso
As **perdas econômicas** decorrentes dos protestos já atingem a casa dos bilhões de dólares. Organizações setoriais estimam prejuízos na ordem de US$ 2 bilhões para a indústria e US$ 700 milhões para micro e pequenos empresários. O setor educacional também foi severamente afetado, com a maioria dos alunos em aulas remotas ou modalidades mistas.
Além das mortes diretas e indiretas, o impacto na economia e no cotidiano da população pressiona o presidente. O Legislativo, por sua vez, tem aprovado medidas que facilitam o emprego das Forças Armadas para conter manifestações, aumentando a tensão.
Rodrigo Paz, que classificou os manifestantes como “vândalos”, tenta equilibrar a repressão com a abertura de mesas de negociação e uma **reforma ministerial** para formar uma equipe mais ágil e receptiva às demandas populares. Contudo, tentativas de diálogo mediadas por ativistas, a Igreja Católica e o vice-presidente fracassaram, evidenciando a profundidade da crise e a dificuldade em encontrar um caminho para a pacificação do país.





