EUA intensificam operações militares na América Latina, gerando mortes e normalizando a violência sem julgamento
Mais de 200 pessoas, incluindo pescadores e civis, já foram mortas em bombardeios realizados pelos Estados Unidos contra embarcações suspeitas de transportar drogas no Caribe e no Pacífico. Essas ações ocorrem sem que os alvos tenham sido acusados, defendidos ou julgados. Washington os classificou como “narcoterroristas”, o que, segundo a justificativa, seria suficiente para transformá-los em alvos militares legítimos.
A questão fundamental é: desde quando o combate ao narcotráfico passou a ser punido com execução sumária? A falta de demonstração de que os alvos transportavam drogas agrava a situação, levantando dúvidas sobre a legalidade e a moralidade dessas operações.
O Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, sinaliza a intenção de expandir essa ofensiva. Em resposta a uma pergunta sobre a possibilidade de ações militares contra Cuba, ele afirmou que “todas as opções, inclusive as militares, estão sobre a mesa”. Paralelamente, anunciou que o governo colombiano autorizou operações militares conjuntas em seu território com forças americanas contra o “narcoterrorismo”. Conforme informação divulgada pela newsletter Cercanías, editada pela historiadora e jornalista Sylvia Colombo, essa cooperação militar se aprofunda com o Equador sob Daniel Noboa, e com a Colômbia, onde o presidente Abelardo de la Espriella convidou os EUA a participarem de operações em solo colombiano.
O Perigo da Normalização e a Nova Doutrina Monroe
O cenário mais preocupante é a rápida normalização de uma prática moralmente condenável na região. O debate, que deveria se concentrar no direito dos EUA de matar suspeitos sem julgamento, desloca-se para onde os próximos bombardeios poderão ocorrer. A própria Estratégia de Segurança Nacional de Trump menciona “restabelecer a preeminência” dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental, ressuscitando a Doutrina Monroe sob um “corolário Trump”. A pretensão de Washington de decidir onde e contra quem usar a força na América Latina não é nova, mas o que assusta é a disposição de alguns presidentes latino-americanos em abrir as portas para essa intervenção.
Colômbia: Um Terreno Perigoso para Experimentos Militares
A Colômbia, com décadas de conflito e milhões de deslocados, representa um terreno extremamente perigoso para esse tipo de experimento militar. Grupos armados não operam em um vácuo, mas sim em meio a camponeses e comunidades pobres. A promessa de ataques “cirúrgicos” esbarra na complexa realidade humana e geográfica do conflito colombiano. Os camponeses, que já pagaram um alto preço pela guerra interna, agora correm o risco de arcar com os custos de uma nova guerra impulsionada pelos Estados Unidos.
“Narcoterrorismo”: Uma Palavra que Justifica a Eliminação
O termo “narcoterrorismo” tem sido crucial para tornar aceitável essa mudança de abordagem. Ele engloba chefes de cartéis, guerrilheiros, pequenos transportadores e outros suspeitos sob uma única categoria de inimigos de guerra. Assim, um indivíduo que deveria ser investigado e julgado passa a ser um alvo passível de eliminação por míssil. Essa simplificação ignora a complexidade das dinâmicas locais e abre precedentes perigosos.
O México como Exemplo de Cooperação Sem Subordinação
O México apresenta uma alternativa clara a essa tendência. Sob a liderança de Claudia Sheinbaum, o país coopera com Washington em inteligência e segurança, mas rejeita veementemente operações militares americanas em seu território. A cooperação é bem-vinda, mas a subordinação não. Sheinbaum lembrou que “a última vez que os Estados Unidos vieram ao México com uma intervenção levaram metade do território”, evidenciando a importância de manter a soberania nacional. Noboa e De la Espriella, ao contrário, fizeram uma escolha diferente, abrindo caminho para uma maior intervenção.
Com mais de 200 mortes registradas até o momento, é crucial que a região e o mundo recuperem a capacidade de indignação antes que esses bombardeios se tornem apenas mais uma notícia cotidiana, apagando a memória das vítimas e a gravidade da escalada da violência.





