Brasil evita seminário de energia nuclear dos EUA e reforça laços com Rússia em tecnologia atômica
O governo brasileiro, sob a presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, optou por não enviar representantes a um seminário sobre cooperação em energia nuclear promovido pela gestão de Donald Trump. O evento, focado na tecnologia de Pequenos Reatores Modulares (SMRs), aconteceu em Buenos Aires entre os dias 2 e 4 de junho.
A decisão do Itamaraty de não participar, citando prazos apertados e a necessidade de consultas internas, surge em um momento de intensas negociações do Brasil com a Rússia para o desenvolvimento de reatores nucleares menores. A recusa ao convite americano levanta questões sobre os alinhamentos estratégicos do Brasil na área de energia e suas relações internacionais.
Conforme divulgado pelo Itamaraty, o convite formal dos Estados Unidos foi recebido em 13 de maio. No entanto, a pasta alegou que a “exiguidade do prazo” impediu a realização das necessárias “consultas internas” para uma participação oficial. A embaixada americana em Buenos Aires confirmou a participação de diversos países latino-americanos, além de especialistas do Canadá, Japão e Reino Unido.
Seminário FIRST e a tecnologia de SMRs
O evento, denominado FIRST (Infraestrutura Fundamental para o Uso Responsável da Tecnologia de Reatores Modulares Pequenos), é uma iniciativa do Departamento de Estado dos EUA voltada para a promoção da segurança energética global através da inovação nuclear. Pequenos Reatores Modulares (SMRs) são usinas de menor porte, que demandam menos espaço e são vistas como uma solução promissora para atender às necessidades energéticas de diversas regiões.
O seminário contou com a presença de autoridades americanas, como Christopher Yeaw, secretário-assistente do Departamento de Estado para o Escritório de Controle de Armas e Não Proliferação. A representação americana em Buenos Aires destacou que o programa FIRST busca incentivar países a explorarem o potencial da energia nuclear, cumprindo os mais altos padrões de segurança e não proliferação.
Interesse brasileiro em reatores nucleares russos
Apesar da ausência no evento promovido pelos EUA, o Brasil já demonstrou interesse em tecnologia de reatores nucleares menores. No ano passado, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, revelou conversas com o governo da Rússia sobre a possibilidade de utilizar SMRs. Segundo Silveira, esses reatores poderiam oferecer “soluções seguras e estáveis para regiões de difícil acesso, como a Amazônia”.
O Itamaraty, contudo, fez questão de afirmar que as negociações com outros países, incluindo a Rússia, “não tiveram qualquer influência na deliberação sobre eventual participação brasileira no workshop regional da iniciativa First”. A pasta informou também que não há registro de participação do Brasil em edições anteriores do programa FIRST.
Contexto geopolítico e alinhamentos estratégicos
A recusa em participar do seminário americano ocorre em um contexto de tensões diplomáticas. O chefe da diplomacia americana, Marco Rubio, tem sido crítico a governos de esquerda na América Latina e recentemente afirmou em audiência no Congresso que o Brasil não faz parte do grupo de nações consideradas amigáveis aos Estados Unidos. Essa declaração adiciona uma camada de complexidade à decisão brasileira de evitar o evento.
A iniciativa FIRST é parte da política de energia nuclear civil do Departamento de Estado americano. A decisão do Brasil de focar em diálogos com a Rússia, enquanto se afasta de uma iniciativa liderada pelos EUA, pode indicar uma estratégia de diversificação de parcerias tecnológicas e energéticas, ou um realinhamento em suas relações internacionais na área de energia nuclear.





