Brasil reavalia acordo comercial com China após imposição de tarifas pelos EUA
Por mais de uma década, o Brasil manteve uma postura de cautela em relação a um acordo comercial entre o Mercosul e a China, argumentando que tal medida poderia prejudicar sua indústria. No entanto, essa posição parece ter sofrido uma guinada significativa após uma conversa telefônica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o líder chinês Xi Jinping, realizada no último domingo (26).
A mudança de rumo coincide com a entrada em vigor de tarifas de 25% impostas por Washington sobre uma parcela considerável das exportações brasileiras. O que antes era visto como um risco industrial, agora é apresentado como uma potencial apólice de seguro contra as políticas comerciais do ex-presidente Donald Trump, sem que novos estudos ou consultas ao setor produtivo tenham sido realizados para embasar essa virada.
Um dos estudos mais abrangentes sobre o tema, publicado em 2024 pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) com simulações do Ipea e de universidades federais, sugere um cenário mais favorável ao acordo do que a indústria tem admitido. O levantamento projeta um ganho de 1,43% para o PIB brasileiro até 2035, o que equivaleria a cerca de US$ 30 bilhões, com potencial para aumento de investimentos e salários reais. As informações foram divulgadas com base no estudo do CEBC.
Impactos setoriais: agronegócio em alta, indústria em alerta
A expansão projetada pelo estudo do CEBC se concentra em setores onde o Brasil já detém força. O agronegócio, por exemplo, poderia ampliar sua produção em US$ 14,6 bilhões. Em contrapartida, a indústria de transformação enfrentaria perdas estimadas em US$ 6,7 bilhões, com setores como têxteis e vestuário previstos para encolherem 15%.
A estrutura tarifária atual entre Brasil e China, ponderada pelo volume de comércio efetivo, revela que as tarifas brasileiras sobre bens industriais somam 9,2%, enquanto as chinesas representam apenas 2,2%. Isso sugere que a indústria brasileira estaria abrindo mão de proteção real em troca de um mercado que, em muitos aspectos, já está acessível.
As tarifas chinesas mais elevadas se concentram no setor agrícola, com uma média ponderada de 12,9%, área onde o Brasil já tem expandido sua participação sem a necessidade de um tratado formal.
Modelagem e desafios da simulação
O modelo de simulação utilizado no estudo do CEBC baseia-se em dados de 2014. Os próprios autores do estudo alertam que essa base de dados pode não capturar o avanço recente da China em setores como veículos e máquinas. Mesmo assim, a simulação aponta esses setores como beneficiados, com um ganho projetado de US$ 3,66 bilhões.
No entanto, dados recentes indicam uma mudança significativa no mercado automotivo. A participação chinesa nas importações brasileiras de automóveis saltou de 5% em 2021 para 72% neste ano. A balança comercial do setor automotivo registrou o maior déficit semestral desde 1997, o que levanta questionamentos sobre a precisão das projeções do modelo.
Obstáculos políticos e a necessidade de negociações estratégicas
A viabilidade de um acordo com a China enfrenta desafios políticos consideráveis, especialmente dentro do Mercosul. O Paraguai, por exemplo, não reconhece a China continental e mantém relações com Taiwan, o que entra em conflito com as regras do bloco que exigem negociações conjuntas de tarifas preferenciais.
Adicionalmente, a Argentina, sob a presidência de Javier Milei, tem demonstrado um alinhamento com Washington e sua ausência na última cúpula do Mercosul evidencia as dificuldades em avançar com uma agenda unificada. A aceleração na busca por um acordo com a China esbarra nesses obstáculos diplomáticos e políticos.
Oportunidade para o Brasil exigir contrapartidas robustas
Um ponto crucial levantado pelo estudo do CEBC, e raramente citado pelo governo, é que um acordo focado apenas em tarifas pode aprofundar o padrão de exportação de commodities e importação de manufaturas. A compensação para os custos industriais necessitaria vir de compromissos concretos em investimentos, transferência de tecnologia e beneficiamento local de minerais críticos.
O Brasil se encontra em uma posição de barganha histórica para exigir tais contrapartidas. A China necessita de segurança alimentar e mineral, ao mesmo tempo em que enfrenta pressões de Washington. O acordo do Mercosul com a União Europeia, que levou 25 anos para ser concluído e entrou em vigor provisório em maio, demonstra a lentidão e os custos associados a negociações de longo prazo.
O país parece estar prestes a liberalizar seu mercado antes de definir claramente sua estratégia produtiva futura, uma decisão cujas consequências econômicas poderão ser sentidas muito depois das próximas eleições presidenciais.





