No Camboja, brasileiros são vítimas de tráfico humano, vivendo sob grades, vigilância e tortura em complexos de golpes eletrônicos.
O Camboja se tornou um destino sombrio para brasileiros atraídos por falsas promessas de trabalho bem remunerado. Ao chegar, muitos se veem presos em complexos operados por quadrilhas, forçados a cometer crimes cibernéticos sob ameaças e violência.
Relatos chocantes de vítimas e testemunhas pintam um quadro de desespero, com agressões físicas, retenção de passaportes e dívidas impagáveis. A situação é tão grave que o Camboja liderou o registro de casos de tráfico humano envolvendo brasileiros em 2025, segundo o Ministério da Justiça.
Apesar das operações policiais e da pressão internacional, a complexidade da rede criminosa e a possível conivência de autoridades levantam dúvidas sobre a eficácia das ações. Conforme informações divulgadas pelo Ministério da Justiça, o país asiático foi o principal destino de vítimas brasileiras registradas no Protocolo Operativo Padrão de Atendimento em 2025.
A Armadilha da Promessa de Dólares e o Inferno na Fronteira
A cidade de Poipet, na fronteira com a Tailândia, é um dos epicentros dessa tragédia. Anúncios prometendo salários em dólar, longas jornadas de trabalho e contratos de um ano atraem vítimas desavisadas. No entanto, ao chegarem, a realidade é brutalmente diferente.
Os recém-chegados têm seus passaportes retidos sob o pretexto de processamento de vistos. Em seguida, são forçados a assinar contratos que os colocam em dívidas impagáveis, com custos de alimentação, passagens e acomodação sendo descontados de salários que, muitas vezes, chegam a zero.
João (nome fictício), 25, descreve a oferta inicial de US$ 4.000 (cerca de R$ 20 mil) e um ano de contrato, contrastando com a realidade de ser obrigado a aplicar golpes eletrônicos. A falta de pagamento ou erros na execução das tarefas resultam em punições severas.
Vigilância Constante, Agressões e Dívidas Impagáveis
O dia a dia nos complexos é marcado por vigilância intensa e intimidação. As punições para quem se recusa a colaborar, tenta contato com autoridades ou não atinge metas financeiras incluem humilhações públicas, tapas, socos e até choques elétricos. A estrutura dos prédios, cercada por muros altos, arame farpado e câmeras de segurança, reforça o sentimento de cativeiro.
Paulo (nome fictício) relata ter sido ameaçado de prisão e teve sua família ameaçada após pedir para sair de suas funções. Foi então que foi forçado a participar diretamente das operações de golpes eletrônicos. O custo para deixar o local, caso a vítima decida tentar fugir, pode ultrapassar os US$ 12.439 (cerca de R$ 64 mil), incluindo uma vasta gama de despesas fictícias.
A falta de autonomia e a ameaça constante criam um ciclo vicioso de exploração, onde a saída se torna praticamente impossível devido às dívidas e ao aparato de segurança.
Camboja Lidera Casos de Tráfico de Brasileiros: Estatísticas Alarmantes
Em 2025, o Camboja registrou 44 dos 84 casos de tráfico humano envolvendo brasileiros, representando mais da metade do total, conforme um relatório do Ministério da Justiça. Este número representa um aumento de 33% em relação a 2024, quando foram contabilizados 63 casos. O trabalho escravo foi a principal motivação do crime, com 49 registros, e todas as vítimas no Camboja atuavam nessas condições.
O Ministério da Justiça ressalta que esses dados são subnotificados, pois nem todas as vítimas conseguem acionar os serviços públicos. A situação é agravada pela atuação de redes criminosas que se aproveitaram da infraestrutura de antigos cassinos para operar golpes online, atraindo pessoas de diversas nacionalidades.
Organizações como a The Exodus Road e a Anistia Internacional têm atuado no resgate e apoio às vítimas, mas alertam para a persistência do problema e a necessidade de ações mais efetivas por parte das autoridades locais e internacionais.
Repressão e Questionamentos: A Luta Contra o Tráfico Humano no Camboja
Diante da pressão internacional, as autoridades cambojanas iniciaram uma campanha de repressão em julho de 2025. O Ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, afirmou que o país leva as denúncias a sério e que investigará qualquer envolvimento de autoridades com as operações de golpes online. Segundo ele, 751 endereços ligados a complexos foram investigados e 605 fechados, com mais de 21.600 estrangeiros resgatados.
No entanto, a Anistia Internacional questiona a eficácia dessas operações, apontando falhas sistêmicas, a continuidade de alguns complexos funcionando após as batidas policiais, a criminalização de vítimas e a possibilidade de conluio entre autoridades e gerentes das unidades. O Camboja afirma ter cooperação ativa com o Brasil para combater esses crimes e repatriar cidadãos.
Apesar dos esforços declarados, a realidade para muitos brasileiros no Camboja ainda é de aprisionamento, exploração e violência, evidenciando a complexidade e a urgência no combate ao tráfico humano na região.





