O dilema das apostas: Lições da Ásia para o Brasil
As apostas online se tornaram um fenômeno global, e o Brasil, ao legalizar essa atividade em 2018, mas demorar para regulamentar, se encontra em uma encruzilhada. A experiência de países asiáticos como China e Hong Kong oferece paralelos e advertências importantes sobre os caminhos a seguir, especialmente no que tange à prevenção do vício e ao combate ao crime organizado.
Enquanto a China opta pela proibição total, com um aparato de vigilância digital robusto, Hong Kong tenta um modelo de legalização controlada que, contudo, esbarra na persistência do mercado ilegal. O Brasil, por sua vez, parece ter herdado os piores aspectos de ambos os mundos, com um mercado em expansão sem a fiscalização adequada.
A Confederação Nacional do Comércio do Brasil aponta um cenário preocupante, com um impacto significativo no varejo e um aumento expressivo no endividamento de famílias. A contaminação pelo crime organizado, similar ao observado em Hong Kong, também é uma realidade que exige atenção urgente das autoridades.
Hong Kong: Legalização com mercado ilegal persistente
Em Hong Kong, a convivência com o jogo legalizado data de 1891, com as corridas de cavalo. Em 2003, o governo estendeu a legalização para apostas em futebol, concedendo o monopólio ao Hong Kong Jockey Club na tentativa de canalizar a demanda para um mercado regulado. No entanto, essa estratégia mostrou-se ambígua.
O mercado ilegal não apenas sobreviveu, como se expandiu. Conforme a fonte, em 2024, as apostas ilegais de basquete movimentaram entre HK$ 70 bilhões e HK$ 90 bilhões (aproximadamente R$ 44,5 bilhões a R$ 57 bilhões). Cartéis com operações no Camboja recrutam jovens para criar contas fantasmas, utilizadas em esquemas de lavagem de dinheiro, evidenciando a complexidade do problema.
A persistência do crime é notória. Recentemente, três jogadores de futebol profissional foram julgados por manipulação de resultados, supostamente por sinalizar apostadores ilegais. Paralelamente, a polícia tem realizado operações que resultam na prisão de centenas de pessoas e na apreensão de milhões em apostas lavadas.
China Continental: Proibição total e vigilância digital
Na China continental, a abordagem é radicalmente diferente. Desde 1949, toda forma de jogo é proibida. O governo utiliza o chamado Grande Firewall para bloquear sites de apostas estrangeiros, e o acesso por meio de VPN é considerado crime. Essa política rigorosa busca coibir qualquer atividade de apostas.
Em 2025, o governo chinês repatriou centenas de suspeitos em operações conjuntas com países vizinhos, desarticulando plataformas que movimentavam bilhões. Um caso específico revelou mais de 200 plataformas ilegais com movimentação financeira expressiva, demonstrando a escala do combate às apostas no país.
Brasil: O pior dos dois mundos?
O Brasil trilhou um caminho distinto, e os resultados até agora sugerem um cenário complexo. A legalização das apostas de quota fixa ocorreu em 2018, mas a regulamentação efetiva só veio com a lei 14.790 em 2023, com regras entrando em vigor em janeiro de 2025. Esse longo período de vácuo regulatório permitiu a proliferação de plataformas sem fiscalização adequada.
Os dados da Confederação Nacional do Comércio do Brasil são alarmantes: as bets retiraram R$ 143 bilhões do varejo desde 2023, e os gastos com apostas cresceram 500% em dois anos. Cerca de 270 mil famílias entraram em inadimplência severa, com o endividamento atingindo 80% em março.
A contaminação pelo crime organizado também é uma realidade. Operações da Polícia Federal investigam lavagem de R$ 1,6 bilhão via apostas ilegais e tráfico de cocaína. No Rio de Janeiro, o Ministério Público mapeou bicheiros que criaram bets em Curaçao para lavar dinheiro, e a CPI da Manipulação de Jogos indiciou indivíduos envolvidos em fraudes e lucros expressivos com a manipulação de resultados.
Lições e desafios para o futuro
A experiência asiática oferece duas lições claras. Hong Kong demonstra que legalizar sem capacidade de reprimir o mercado paralelo apenas adiciona uma camada à oferta existente, sem eliminar a criminalidade. A China, por outro lado, mostra que a proibição total demanda um aparato de vigilância digital que pode ser inviável para democracias.
O Brasil, ao que tudo indica, falhou em construir um arcabouço regulatório robusto e uma barreira tecnológica eficaz. A legalização tardia e a regulamentação ainda mais demorada criaram um ambiente propício para o crescimento descontrolado do mercado, cujas consequências podem impactar a sociedade e a economia de forma duradoura.





