Comediante chinês Guo Degang sob investigação por paródia de canção revolucionária
O renomado comediante chinês Guo Degang, conhecido por popularizar o gênero Xiangsheng, está sendo investigado pelas autoridades de Wuhan. A apuração, iniciada em 11 de agosto, refere-se a alterações feitas por ele na letra de uma canção revolucionária do Partido Comunista durante um espetáculo no final de julho.
A música em questão, “Tocando meu adorado alaúde chinês”, tem forte ligação com a resistência comunista durante a guerra sino-japonesa e é considerada um símbolo histórico. Guo Degang adaptou um trecho da letra, substituindo a menção a um lago por “tudo está tranquilo na Cidade Proibida”, em um tom de paródia.
A apresentação gerou denúncias de nacionalistas, levando o Departamento de Cultura e Turismo de Wuhan a abrir uma investigação formal. A acusação aponta para “distorção e vulgarização de uma obra revolucionária clássica” e violação da “moral pública e dos padrões de conduta aceitos”. Conforme divulgado pelo jornal The Paper, a base da investigação não é a paródia em si, mas o fato de a adaptação não ter sido submetida à aprovação prévia, caracterizando “violação da regulação de espetáculos comerciais”.
Tensão entre projeção cultural e controle ideológico
Este incidente evidencia a complexa relação entre a ambição da China de projetar uma imagem cultural moderna e influente no cenário internacional e o rígido controle ideológico exercido sobre a produção artística em seu território. A necessidade de aprovação prévia para cada fala e a punição do improviso transformam um gênero popular em um risco regulatório.
A mesma máquina de controle que se manifesta neste caso é a que a China tenta disfarçar ao promover seu setor criativo como um reflexo de um país moderno para o resto do mundo. A necessidade de conformidade ideológica, portanto, parece sobrepor-se à liberdade de expressão artística, mesmo em formas de entretenimento populares.
Outros desdobramentos na política e economia chinesa
Em outro desenvolvimento, um general chinês ressaltou a importância da “lealdade absoluta” do Exército ao Partido Comunista, em artigo que celebrava o centenário do ex-líder Jiang Zemin. O vice-presidente da Comissão Militar Central, Zhang Shengmin, defendeu as medidas de Jiang para fortalecer a lealdade ideológica em meio a investigações anticorrupção na cúpula militar.
No setor corporativo, a gigante finlandesa Nokia anunciou o corte de grande parte de seus funcionários na China continental e o fechamento de instalações até o fim do ano. A decisão ocorre após a perda de mercado para concorrentes locais como Huawei e ZTE, além da preferência estatal por tecnologia doméstica. A receita da Nokia na China caiu significativamente, de € 1,84 bilhão em 2019 para € 913 milhões no último ano.
Adicionalmente, o corpo do ex-premiê Zhu Rongji foi cremado em Pequim, com a presença de Xi Jinping e da cúpula do Partido Comunista. Zhu, considerado o “engenheiro-chefe” das reformas econômicas, teve seu papel elogiado na biografia oficial divulgada pela agência estatal Xinhua, destacando sua integridade e combate à corrupção.
China busca expandir influência na América Latina
Em outra frente, Xi Jinping declarou ao presidente do Equador, Daniel Noboa, que a América Latina deve escolher seus parceiros internacionais “sem interferência externa”, em uma crítica velada aos Estados Unidos. O encontro ocorreu durante a visita de Estado de Noboa à China, vinculada aos dez anos da parceria estratégica entre os dois países.
Apesar da aproximação de Noboa com os EUA, o Equador mantém a China como um parceiro comercial relevante. O país sul-americano busca reverter restrições chinesas a processadoras de camarão e negociar um contrato para a usina hidrelétrica Coca Codo Sinclair. No entanto, a usina, construída com capital chinês, enfrenta problemas de infraestrutura e condenação judicial contra a empresa responsável.
O Orçamento Geral do Estado equatoriano para 2026 já prevê empréstimos de bancos estatais chineses, o que limita a margem de manobra de Quito em disputas comerciais e de infraestrutura. Essa dependência financeira explica, em parte, a necessidade de Noboa de aceitar a retórica chinesa anti-Washington, mesmo sendo um aliado de Donald Trump.





