Multidão em Teerã clama por vingança na despedida de Khamenei, ecoando “Yalasarat al-Khamenei” em funeral de Estado.
Na madrugada desta terça-feira, Teerã já exalava calor e um clima de comoção. Uma maré humana se formou nos túneis do metrô, buscando desesperadamente chegar à praça Enghelab, um dos pontos centrais do cortejo fúnebre do aiatolá Ali Khamenei. O ar estava carregado, com vagões vestidos de preto e uma multidão unida em seu luto.
A aglomeração, embora uniforme à distância, revelava fissuras. Entre as mulheres com chadores idênticos, observavam-se outras com cabelos descobertos, vestidas fora do código tradicional. Milhares lotaram a rede metroviária, com oito estações fechadas por saturação, evidenciando a magnitude da mobilização.
A descida na plataforma da Universidade Sharif empurrou centenas em direção à praça Enghelab. O cheiro que pairava no ar, uma mistura de água de rosas e suor, remetia a outras despedidas em países vizinhos. Conforme informações divulgadas, o funeral de Khamenei tomou emprestada a rica cultura de serviço husseiní, com centenas de “mokebs” – postos de alimentos, bebidas e descanso – instalados ao longo do percurso do cortejo fúnebre.
A Cultura do Serviço Husseiní Presente no Funeral de Khamenei
A avenida Enghelab, também conhecida como Avenida da Revolução, foi o ponto de partida do cortejo. Caminhando em seu sentido, recorda-se a multidão de 1979 que impôs este nome à antiga Avenida Xá Reza. A rua, palco de inúmeras marchas na história da cidade, abriga a Universidade de Teerã e as livrarias mais antigas do país.
O asfalto quente sob os pés não impedia a espera de milhares de pessoas, ombro a ombro, pelo caixão coberto de veludo verde e preto. Em meio à espera, garrafas de água e sucos gelados circulavam de mão em mão, um gesto de solidariedade em meio ao calor intenso. Essa organização remete à peregrinação de Arbaeen, que celebra o imã Hussein, neto do profeta Maomé.
O imã Hussein foi decapitado no ano 680 por recusar-se a jurar lealdade a um poder considerado ilegítimo. Ao receberem as provisões, as pessoas gritavam “Yalasarat al-Hussein”, um grito ritual que pede vingança. Agora, para os muçulmanos xiitas, este mesmo grito se tornou “Yalasarat al-Khamenei”, inscrevendo a morte do aiatolá Khamenei na cadeia histórica de sangue não vingado.
“Yalasarat al-Khamenei”: Um Grito de Vingança com 14 Séculos de História
A praça Enghelab, onde a monarquia iraniana chegou ao fim há 47 anos, continua sendo um termômetro político em Teerã. Quatro meses após o início da guerra, a praça exibe um mural gigante do líder assassinado, ladeado por cenas de combatentes e outros clérigos. A mensagem é clara: um chamado à ação e à retaliação.
A marcha seguiu pela avenida Valiasr, a mais longa alameda da capital iraniana, com seus 18 quilômetros e plátanos orientais plantados em 1939. Apesar de muitas árvores terem sido dizimadas, as que restam oferecem a única sombra ao longo do extenso trajeto. A avenida, que já teve nomes como Pahlevi e Mosadeq, hoje leva o nome do 12º imã aguardado pelos xiitas.
Em seu cruzamento com a Enghelab, a via se transforma em Avenida Azadi (Liberdade), que corre até a praça mais fotografada do Irã. Nesse trajeto, um caminhão-pipa azul e branco distribuía água, exibindo a imagem de Cristo crucificado em sua traseira, um lembrete da longa convivência religiosa entre cristãos, judeus, muçulmanos e zoroastristas no Irã.
A Avenida Azadi e a Mensagem de Desafio e Negociação
Bombeiros e membros da defesa civil borrifavam a multidão com mangueiras, enquanto ambulâncias e motociclistas se mantinham a postos. Perto de uma zona de distribuição de bebidas, um pai segurava sua filha de meses, vestida inteiramente de preto e com um turbante, pronta para um luto que não escolheu.
Dez quilômetros separam a praça Imã Hussein da emblemática torre Azadi. O cortejo, que levou cerca de dez horas para percorrer essa distância, avançou em um ritmo lento. O caixão de Ali Khamenei e de quatro familiares assassinados com ele não podia avançar sem ser tocado e aclamado pela multidão.
Segundo o regime, o corpo de Khamenei permaneceu custodiado sem sepultura por quatro meses. A tradição xiita preza pela rapidez nos ritos fúnebres, mas a contenda que se seguiu ao ataque impôs seu próprio ritmo. No xiismo, morrer dessa forma é considerado martírio, permitindo que um funeral de Estado combine luto e desafio.
Vestidos de preto, batendo no peito, os enlutados portavam bandeiras vermelhas e cartazes com a frase “haverá sangue” em persa e inglês. Essa manifestação não era apenas dor, mas uma declaração política em um momento de negociações de paz ainda sem assinatura. A cerimônia é, ao mesmo tempo, luto e carta de negociação, com repercussões econômicas globais, especialmente no que diz respeito ao estreito de Hormuz.





