Expansão do Narcotráfico na Colômbia Intensifica Conflitos e Frustra Negociações de Paz
A Colômbia enfrenta um cenário de segurança cada vez mais complexo, onde o avanço do narcotráfico e a consolidação de grupos armados com foco em atividades econômicas superam os esforços de paz. Comunidades rurais, que outrora vislumbraram um futuro de estabilidade após o acordo de 2016, agora relatam um recrudescimento da violência, impulsionado por organizações criminosas que priorizam lucros em detrimento de ideologias.
A produção de cocaína mais do que triplicou na última década, com uma parcela significativa destinada ao mercado europeu, transformando a Colômbia em um epicentro de crime organizado e violência. Essa realidade desafia as estratégias de pacificação e coloca em xeque o futuro do país, com eleições presidenciais polarizadas apresentando caminhos divergentes para lidar com a crise.
Conforme informações divulgadas pelo Financial Times, a situação atual contrasta drasticamente com as expectativas geradas pelo acordo de paz de 2016. A líder comunitária Nora Taquanas, da província de Cauca, relata que o conflito está “realmente muito mais intenso agora”, com grupos movidos principalmente por interesses econômicos. Ela descreve um cenário onde a negociação direta com grupos identificáveis deu lugar à atuação de organizações mais fluidas e focadas no lucro, tornando a resolução dos conflitos mais desafiadora.
Ascensão de Grupos Criminosos e Impacto na Produção de Cocaína
Os ex-guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), signatários do acordo de 2016, foram em grande parte substituídos por novas facções armadas que priorizam o tráfico de drogas para obter lucro. Esses grupos expandiram massivamente a produção de cocaína, desenvolvendo novos mercados e intensificando a violência em diversas regiões do país. A produção de cocaína na Colômbia mais do que triplicou na última década, com grande parte da nova produção sendo enviada para a Europa.
O aumento na produção de cocaína demonstra como os conflitos colombianos são agora impulsionados por exércitos privados com fins lucrativos, financiados pelo consumo global. Esse processo se intensificou sob o governo do presidente Gustavo Petro, que lançou uma iniciativa de negociação em 2022 com todos os grupos armados. No entanto, o ministro da Defesa, Pedro Sánchez, admitiu que algumas gangues se aproveitaram da “boa vontade do governo para aumentar sua produção”.
Novas Técnicas e Expansão Territorial do Narcotráfico
A nova geração de gangues armadas na Colômbia introduziu um maior profissionalismo na produção de cocaína, operando em uma escala muito maior. Foram desenvolvidas novas variedades de cultivos de coca, com práticas agrícolas aprimoradas e métodos de processamento mais sofisticados, permitindo a extração de mais cocaína por folha. O uso de drones para fertilização de plantações e laboratórios de processamento mais complexos, capazes de processar toneladas de cocaína por mês, são exemplos dessa evolução.
Segundo a ONU, a área cultivada com coca na Colômbia aumentou cerca de 50% entre 2018 e 2023, atingindo 253 mil hectares. A proibição da fumigação aérea de plantações de coca após uma decisão judicial em 2015 contribuiu para essa expansão. O rápido aumento na produção levou a uma queda nos preços da coca em 2022, mas os grupos criminosos responderam encontrando nova demanda, especialmente na Europa.
Europa como Novo Grande Mercado e Diversificação de Atividades Ilícitas
A Europa tem registrado um aumento dramático na disponibilidade de cocaína e na incidência de crimes relacionados a drogas, consumindo quase tanta cocaína quanto os Estados Unidos. Em 2023, os países europeus apreenderam 419 toneladas de cocaína, marcando o sétimo ano consecutivo de recordes. Casos como uma apreensão de 35,5 toneladas na Alemanha, avaliadas em € 2,6 bilhões, e o alerta sobre o risco de a Bélgica se tornar um “narcoestado” evidenciam a gravidade do problema.
O controle territorial e das rotas de contrabando permitiu que as gangues de drogas expandissem suas atividades para outras indústrias ilícitas, como a mineração ilegal de ouro e o tráfico de pessoas. O Clan del Golfo, por exemplo, utiliza seu domínio na fronteira Colômbia-Panamá para extorquir migrantes que atravessam o Tapón del Darién em direção aos EUA. Essa diversificação de atividades ilícitas fortalece financeiramente os grupos criminosos e amplia seu poder.
Fragmentação e Novos Atores no Tráfico de Cocaína
Com o desarmamento das Farc em 2016, houve um pânico entre traficantes globais, levando grupos como o cartel de Sinaloa e a máfia albanesa a buscarem novas fontes de suprimento na Colômbia. A cadeia de suprimentos se tornou mais fragmentada e especializada, mas três grupos principais emergiram como dominantes: o Exército de Libertação Nacional (ELN), dissidências das Farc que rejeitaram o acordo de paz, e o Clan del Golfo, originado de paramilitares de direita.
O Clan del Golfo é descrito como a maior organização criminosa da Colômbia, com uma estrutura gerencial semelhante a uma multinacional. “É uma síntese de todos os conflitos que tivemos na Colômbia nos últimos 40 anos, e de todos os erros que cometemos”, afirma María Victoria Llorente, do centro de estudos Ideas para la Paz.
Caminhos Divergentes para a Paz: Ofensiva Militar vs. Negociação
A próxima eleição presidencial colombiana apresenta aos eleitores duas visões distintas para lidar com a expansão dos grupos armados. Abelardo de la Espriella, candidato de extrema direita, propõe uma nova “ofensiva militar” contra os grupos narcotraficantes, prometendo “neutralizar ou capturar” líderes em 90 dias e buscando um “Plano Colômbia 2.0”. Ele recebeu apoio de Donald Trump, que elogiou sua postura firme contra o que chama de “narcoterroristas”.
Por outro lado, Iván Cepeda, senador de esquerda e um dos arquitetos da “Paz Total” do atual governo, defende a continuidade das negociações. No entanto, a estratégia de “Paz Total” do governo Petro foi criticada por falhas na implementação e falta de coordenação, permitindo que grupos criminosos expandissem suas operações. “A chamada política de paz total foi um fracasso completo”, declarou Humberto de la Calle, ex-negociador-chefe do acordo de 2016, “Não há um único grupo que esteja mais fraco do que estava há quatro anos.”
Observadores apontam que uma nova ofensiva militar enfrenta limitações significativas, pois os grupos armados atuais operam entre as comunidades locais, dificultando a ação militar sem atingir a população civil. Ex-presidente Juan Manuel Santos, que negociou o acordo de 2016, sugere que a solução reside em uma combinação de pressão militar, desenvolvimento econômico, substituição de cultivos, aumento da presença policial e processos judiciais para crimes anteriores, replicando a estrutura do acordo com as Farc para “recuperar o controle do território”.





