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Copa do Mundo no México Ganha Nova Dimensão: Famílias Usam Figurinhas para Encontrar Desaparecidos

No México, o amor pelo futebol se une à dor da busca por desaparecidos. Figurinhas da Copa do Mundo se tornam cartazes de esperança em campanha internacional.

Às vésperas da Copa do Mundo, o México se prepara para receber o evento esportivo, mas a celebração vem acompanhada de uma dura realidade. Famílias de pessoas desaparecidas utilizam a visibilidade do torneio para transformar a busca por seus entes queridos em uma campanha internacional.

A iniciativa inusitada de criar cartazes de busca no formato de figurinhas de álbum da Copa do Mundo busca capturar a atenção do público e das autoridades. Ao mesmo tempo, manifestações estão planejadas para ocorrer próximo aos estádios que sediarão as partidas.

Com 132,5 mil pessoas desaparecidas, segundo o Sistema Nacional de Segurança Pública, o México enfrenta uma crise alarmante. A Copa do Mundo, sediada em conjunto com Estados Unidos e Canadá, oferece um palco para que essas famílias exponham sua dor e exijam respostas. Conforme informação divulgada pelo Sistema Nacional de Segurança Pública.

Figurinhas que Contam Histórias de Desaparecidos

Em Guadalajara, Jalisco, uma das regiões mais afetadas, o coletivo Luz de Esperança, fundado por Hector Flores, lidera uma estratégia criativa. O objetivo é aproximar a causa dos desaparecidos do universo do futebol, transformando a linguagem visual da Copa em uma ferramenta de mobilização.

Os cartazes, que imitam as famosas figurinhas da Panini, agora estampam os rostos de pessoas desaparecidas. Em vez de craques do futebol, aparecem fotos de indivíduos vestidos com a camisa da seleção mexicana, disputando espaço com as propagandas do torneio.

Essas “figurinhas de busca” estão sendo distribuídas por toda a cidade e amplamente compartilhadas nas redes sociais, buscando alcançar o maior número de pessoas possível e gerar novas pistas. A ideia é que cada figurinha se torne um lembrete constante da urgência em encontrar os desaparecidos.

“Caritas por la Memoria”: Futebol Pela Conscientização

Outra ação notável são as “Caritas por la Memoria”, partidas de futebol informais organizadas por familiares e apoiadores. Os jogadores entram em campo com camisas personalizadas com os rostos dos desaparecidos, levando a causa para dentro do esporte que mobiliza milhões.

Hector Flores, que busca por seu filho Héctor Daniel Flores Fernández, desaparecido em 2021, expressa a urgência da causa: “Não há problema em gostar da Copa, o problema é esquecer que precisamos continuar nomeando as pessoas desaparecidas”, afirma.

Flores critica os gastos excessivos com a estética e o espetáculo da Copa, argumentando que esses recursos poderiam ser direcionados para a busca e investigação de pessoas desaparecidas. A situação em Jalisco é particularmente grave, com cerca de 16 mil registros de desaparecidos, muitos ligados ao narcotráfico.

A Crise Forense e a Impunidade no México

O estado de Jalisco, berço do poderoso Cartel Jalisco Nueva Generación (CJNG), lidera o ranking de desaparecidos no país. A influência do grupo criminoso é um fator central na crise, com casos de sequestro, recrutamento forçado e falsas ofertas de emprego sendo comuns.

Especialistas e ativistas apontam a incapacidade do Estado em combater os desaparecimentos, agravada pelo possível envolvimento de agentes públicos com organizações criminosas. Relatórios da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e do Comitê da ONU contra o Desaparecimento Forçado corroboram essa preocupação.

A ONU alertou para a existência de mais de 4.500 valas clandestinas e cerca de 72 mil restos humanos não identificados no México, um indicativo de uma grave crise forense. Recentemente, uma vala com restos de 62 pessoas foi encontrada em Guadalajara, próxima a um dos estádios da Copa.

A Luta por Visibilidade e Justiça

Grupos buscadores, como os de Jalisco, relatam tentativas de remoção de cartazes de busca por parte de autoridades, em um esforço para “limpar” a imagem das cidades durante o evento. A Anistia Internacional denunciou tentativas de retirada de cartazes na “Glorieta de los Desaparecidos”, um ponto de encontro crucial para as famílias.

A proliferação desses grupos, segundo o advogado Eduardo Guerrero Lomelí, do Centro ProDH, “demonstra tanto o agravamento da crise quanto a incapacidade do Estado de procurar as pessoas desaparecidas”. Esses ativistas enfrentam, além disso, ameaças de grupos criminosos, com 30 casos registrados de buscadores mortos ou desaparecidos desde 2010.

A Copa do Mundo se apresenta como uma oportunidade ímpar para dar visibilidade a essa crise humanitária. A esperança é que a atenção global gerada pelo torneio impulsione ações efetivas e traga respostas para as milhares de famílias que aguardam ansiosamente pelo retorno de seus entes queridos.

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