A dura realidade de viver em Cuba: apagões, falta de água e transporte caótico impactam o dia a dia de jovens profissionais.
A vida de Gustavo, um jovem de 25 anos que trabalha em uma galeria de arte em Havana, é um retrato da crise que assola Cuba. Seus dias são marcados por apagões que chegam a 16 horas diárias, afetando desde atividades rotineiras até o trabalho e a vida social.
A infraestrutura energética obsoleta e a escassez de combustíveis, agravadas por sanções dos Estados Unidos, criaram um efeito dominó. A falta de energia impacta o transporte público, o fornecimento de água e até a segurança nas ruas, conforme relatos detalhados pela BBC News Brasil.
Essa situação, somada a uma profunda crise econômica, gera frustração e incerteza entre os cubanos, que lutam para manter a normalidade em suas vidas. A esperança de um futuro melhor se choca diariamente com os desafios impostos pela precariedade dos serviços básicos.
A Odisseia Diária para o Trabalho e Lazer
Para Gustavo, ir ao trabalho se tornou uma jornada complexa. A falta de transporte público, como os ônibus que praticamente pararam de operar, o obriga a depender de alternativas caras e incertas. O ciclobus, um dos poucos meios de transporte que cruzam a baía de Havana, também tem falhado com frequência.
Quando o ciclobus não funciona, Gustavo simplesmente não consegue ir trabalhar, pois o custo de táxis seria proibitivo, consumindo um terço de seu salário mensal. Os carros particulares que substituem os ônibus cobram valores exorbitantes, cerca de 800 pesos, o equivalente a 25% do salário mínimo.
O retorno para casa também é um desafio. Gustavo pratica o “coge botella”, pedindo carona, e sua sorte depende da eletricidade nos semáforos e da generosidade dos motoristas. Longas caminhadas sob o sol se tornaram rotina, e a vida social foi drasticamente reduzida devido à dificuldade e ao custo de voltar para casa à noite sem transporte.
O Lixo Acumulado e a Falta de Água Conectada à Energia
A crise energética também paralisa a coleta de lixo. Caminhões de lixo deixaram de operar regularmente, resultando em ruas e esquinas tomadas por entulho em Havana e em todo o país. Moradores, como Gustavo relata, recorrem a queimar o lixo, o que por vezes causa incêndios acidentais.
A falta de eletricidade afeta diretamente o abastecimento de água. Sem energia, os motores que bombeiam a água para as residências não funcionam. Mesmo com luz no bairro, se a estação de bombeamento estiver sem energia, a água não chega. A infraestrutura de tubulações, antiga e precária, também contribui para as interrupções frequentes.
Gustavo e sua família se preparam para a escassez de água armazenando-a em tanques e baldes. No entanto, em longos períodos sem fornecimento, os estoques se esgotam, forçando escolhas difíceis sobre o uso da água disponível. A falta de água já levou locais de trabalho a ficarem sem condições de uso de banheiros por meses.
Os Apagões e a Deterioração da Segurança
Os “alumbrones”, como são chamados os apagões em Cuba, tornaram-se a norma, com durações irregulares que podem chegar a 16 horas diárias. A energia retorna por curtos períodos, sem lógica aparente, levando as pessoas a ligarem aparelhos essenciais, como máquinas de lavar, a qualquer momento.
A falta prolongada de eletricidade afeta a conservação de alimentos e a comunicação, com sinal de celular e internet sendo interrompidos. A escuridão nas ruas também aumentou o medo, especialmente ao retornar para casa à noite. Gustavo relata que a sensação de segurança em Havana diminuiu consideravelmente, com o aumento da criminalidade.
Ele conta que assaltos, antes raros e motivo de grande repercussão, tornaram-se mais frequentes. Pertences de baixo valor são roubados e tentativas de assalto ocorrem, forçando os cidadãos a andarem com mais cautela. A antiga imagem de Cuba como um país excepcionalmente seguro já não corresponde totalmente à realidade atual.
Frustração e a Luta por Sonhos em Meio à Crise
Apesar das adversidades, Gustavo mantém um certo otimismo, buscando ajustar seus sonhos à realidade. Ele almeja construir uma carreira no mundo da arte, escrevendo e publicando, e vê na arte e nos artistas uma fonte de esperança para realizar seus objetivos.
No entanto, a crise energética age como um “balde de água fria” em seus planos e no ânimo geral. A frustração, o estresse e a incerteza sobre o futuro geram um impacto emocional profundo. O “mito do cubano que ri das próprias misérias” parece ter chegado ao fim, substituído por nervos à flor da pele e uma crise de saúde mental e de estado de espírito no país.
A falta de previsibilidade e a constante luta para suprir necessidades básicas minam o bem-estar. A esperança de que a situação melhore é tênue, e a resiliência dos cubanos é testada diariamente pela dura realidade imposta pela crise energética e econômica.





