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Da Alemanha para o Mundo: A Surpreendente História dos Alemães como Imigrantes e o Brasil na Rota Migratória

A Alemanha, um país moldado pela migração, reflete sobre seu passado e presente como destino e origem de fluxos migratórios globais.

As palavras “Eles chegam em massa e jamais adotarão nossa língua ou nossos costumes… Em breve serão mais numerosos do que nós… e até mesmo nosso governo será abalado” podem soar como críticas atuais a refugiados. No entanto, foram proferidas por Benjamin Franklin, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, no século 18, dirigidas aos próprios alemães.

Essa percepção, de que um grupo recém-chegado não se integrará, é um tema recorrente na história da migração. A busca por uma vida melhor, impulsionada por guerras, perseguições e dificuldades econômicas, é uma constante na experiência humana, fazendo da migração um fenômeno intrínseco à nossa existência, como afirma o historiador Jochen Oltmer.

A jornada dos alemães rumo a novos horizontes, seja para a América ou para a Rússia, é marcada por desafios, promessas e transformações. As dificuldades enfrentadas por esses migrantes, desde as perigosas travessias marítimas até a adaptação em terras estrangeiras, oferecem uma perspectiva valiosa sobre os fluxos migratórios que continuam a moldar o mundo. Conforme as informações divulgadas, a história da migração alemã é complexa e multifacetada, com paralelos surpreendentes com os debates atuais sobre imigração.

O Chamado do Novo Mundo e as Duras Travessias

No século 18, a emigração alemã para os Estados Unidos, embora ainda em menor escala, já era uma realidade. Cerca de 150 mil alemães deixaram seu país até 1820, muitos seduzidos por relatos de sucesso e prosperidade. Contudo, a realidade muitas vezes era manipulada por recrutadores que recebiam comissões por cada pessoa convencida a partir, em um esquema que lembra os atuais “coiotes” ou atravessadores.

A travessia, que podia durar até um ano de salário de um artesão, exigia que as famílias vendessem quase todos os seus bens. As condições nos navios a vela eram precárias, com espaço limitado, infestação de pragas e alimentação de baixa qualidade, levando a doenças como disenteria e varíola. Gottlieb Mittelberger, em seu relato de viagem de 1750, descreveu o sofrimento e as mortes a bordo, com corpos sendo lançados ao mar.

Ao chegar, muitos migrantes pobres eram virtualmente leiloados, tendo que trabalhar por anos para quitar a passagem. Esses contratos eram negociados nos EUA, resultando na separação de famílias e, em casos extremos, na venda de filhos pelos próprios pais.

O Convite da Czarina e o Novo Destino no Leste

Paralelamente à rota americana, um significativo fluxo migratório alemão se dirigiu para o leste, atendendo ao chamado da Imperatriz russa Catarina, a Grande. Em 1763, ela publicou um manifesto convidando estrangeiros a colonizar regiões pouco povoadas da Rússia.

Os incentivos oferecidos eram generosos: transporte gratuito, concessão de terras, isenção de impostos por anos, dispensa do serviço militar, acesso à educação e autonomia política. Os colonos podiam manter sua língua e costumes, administrando suas próprias comunidades.

O Século 19: A América como Grande Sonho e a Realidade Europeia

O século 19 viu a América se consolidar como o principal destino dos emigrantes alemães. O crescimento populacional na Alemanha, que quase dobrou, somado a colheitas fracassadas e períodos de fome, criaram um cenário de desemprego e falta de perspectivas. “Muitas pessoas não viam futuro para si nem para seus filhos e decidiram emigrar”, explica Simone Blaschka, do Museu Alemão da Emigração.

Cerca de seis milhões de alemães partiram para o Novo Mundo, impulsionados também por guias de emigração que exaltavam as oportunidades nos Estados Unidos. Guias como o publicado por W. E. Eggerling em 1832 promoviam a ideia de que “O homem honesto, inteligente e trabalhador não vive em lugar algum tão bem, tão livre e tão feliz quanto na América.”

Naquele período, aproximadamente 60 milhões de europeus emigraram globalmente, incluindo para o Brasil, onde a chegada de colonos alemães iniciou em 1824. Essa onda migratória europeia foi massiva.

A Mudança de Rumo: Da Europa Emigrante à Europa Imigrante

Em meados do século 20, o cenário europeu se inverteu. O continente deixou de ser predominantemente um emissor de emigrantes para se tornar um destino de imigração. Para Jochen Oltmer, a recepção aos migrantes está diretamente ligada às expectativas econômicas da sociedade receptora.

Durante o “milagre econômico” da Alemanha Ocidental nas décadas de 1950 e 1960, o país viu chegar cerca de 14 milhões de “trabalhadores convidados” de países como Itália, Grécia, Espanha, Portugal, Iugoslávia e Turquia. Aproximadamente 3 milhões permaneceram definitivamente no país.

Apesar dessa realidade, a Alemanha demorou a se reconhecer como um país de imigração, com a crença predominante de que os recém-chegados retornariam aos seus países de origem, desestimulando investimentos em sua integração. Atualmente, a Alemanha busca atrair profissionais qualificados, enquanto o asilo é concedido principalmente a perseguidos políticos e vítimas de conflitos armados.

A aceitação de migrantes na Alemanha varia conforme a origem, como evidenciado pela crise migratória de 2015, onde sírios foram acolhidos com mais facilidade do que afegãos. A migração e o asilo continuam sendo temas centrais no debate político alemão, mas é crucial lembrar que os pedidos de asilo representam apenas cerca de 10% da migração total para o país, com a maioria ocorrendo por motivos de trabalho, estudo ou família, segundo Oltmer.

Enquanto os descendentes dos alemães que Benjamin Franklin criticou estão integrados nos EUA, na Alemanha o processo de integração ainda enfrenta obstáculos, com um atraso significativo na regularização de imigrantes que vivem há anos no país. É fundamental um debate amplo e, por vezes, difícil, sobre o futuro da sociedade alemã e a inclusão de todos os seus membros, reconhecendo que a migração é uma parte intrínseca da história humana.

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