Data centers impulsionam alta nos preços de smartphones, afetando o bolso do consumidor
A corrida pela inteligência artificial está causando um efeito cascata no mercado de tecnologia, e o consumidor de smartphones pode sentir o impacto diretamente no bolso. A crescente demanda por chips para processamento de IA em data centers está elevando os custos na indústria de semicondutores, o que, por sua vez, tende a encarecer os aparelhos celulares.
Essa nova dinâmica do mercado pode forçar uma migração dos consumidores para categorias de smartphones mais premium. Com chips de memória cada vez mais caros, a fabricação de aparelhos de baixo e médio custo se torna menos atrativa para as empresas, que buscam otimizar seus investimentos. A tendência é de uma “premiunização” geral do mercado, como aponta Luiz Tonisi, presidente para América Latina da Qualcomm, líder global em desenvolvimento de chips para smartphones.
A Qualcomm, inclusive, já tem sentido os reflexos dessa mudança. As ações da empresa negociadas na Nasdaq acumulam queda expressiva desde o início de 2026, em parte devido às expectativas de um mercado de smartphones mais retraído. Para mitigar esses efeitos e diversificar suas fontes de receita, a companhia tem investido em outros setores, como automotivo e internet das coisas, além de data centers focados em inferência de IA.
A explosão do custo da memória e a migração para data centers
Luiz Tonisi, executivo da Qualcomm, destaca um fator crucial: o aumento expressivo no custo da memória. Ele revela que o preço da memória pode estar “triplicando ou até multiplicando por cinco vezes”. Essa disparada se deve, em grande parte, à preferência dos produtores de semicondutores em direcionar a oferta para os data centers. Nesses centros de processamento, o valor agregado dos chips é significativamente maior, tornando a produção para esses mercados mais lucrativa.
Para smartphones de altíssimo padrão, como modelos da Apple ou Samsung da linha S, o impacto percentual no custo final é menos perceptível. Afinal, um aparelho que custa milhares de reais tem uma margem para absorver o aumento do custo do chip. No entanto, a situação é drasticamente diferente para os smartphones de baixo e médio custo.
O fenômeno da “premiunização” dos smartphones
A consequência direta dessa alta no custo dos componentes é o que Tonisi chama de “premiunização” do mercado de smartphones. Nenhuma empresa deseja fabricar um celular onde a memória, um componente essencial, represente uma parcela tão grande do custo total, como 50%. Essa realidade força as fabricantes a repensarem suas linhas de produção e ofertas.
Além do custo da memória, outros fatores impulsionam essa tendência. A incorporação cada vez maior de tecnologias de inteligência artificial nos próprios aparelhos, a consolidação do 5G e o avanço contínuo nas tecnologias de câmeras agregam mais valor e, consequentemente, aumentam o custo de desenvolvimento e produção dos smartphones.
Qualcomm busca diversificação diante de um mercado de smartphones em transformação
A própria Qualcomm, gigante no fornecimento de chips, enfrenta os desafios dessa reconfiguração. A empresa tem buscado ativamente diversificar suas fontes de receita. A meta é que, até 2029, a contribuição dos processadores para smartphones caia de 90% para 50% do faturamento total.
O restante virá de setores promissores, como chips para automóveis, dispositivos de Internet das Coisas (IoT) e computadores. Essa estratégia visa reduzir a dependência do volátil mercado de smartphones e aproveitar outras áreas de crescimento tecnológico. A empresa também está apostando em data centers dedicados à inferência de inteligência artificial, que são espaços menores e mais próximos dos consumidores, otimizados para executar modelos de IA já treinados.
Um futuro com celulares mais caros e com mais tecnologia embarcada
A mensagem é clara: a tendência é de que os smartphones se tornem, em média, mais caros. A demanda aquecida por recursos de IA em data centers, aliada ao avanço tecnológico embarcado nos próprios celulares, está redefinindo o cenário da indústria de semicondutores e, consequentemente, o preço final dos aparelhos que usamos no dia a dia.
A Qualcomm, que busca se manter na liderança do mercado com propostas de valor inovadoras, reconhece a importância de entrar em todos os segmentos. O objetivo é oferecer soluções que vão além do básico, acompanhando as demandas por mais desempenho, conectividade e inteligência artificial, mesmo que isso signifique um custo maior para o consumidor final, especialmente para aqueles que buscam aparelhos mais acessíveis.





