Direita Chilena Lança Proposta de ‘Museu da Verdade’ em Contraponto ao Memorial da Ditadura
Parlamentares chilenos ligados à direita mais conservadora apresentaram um projeto de lei para a criação do chamado “Museu da Verdade”. A iniciativa visa estabelecer uma narrativa histórica alternativa ao período que antecedeu o golpe militar de 1973, focando em aspectos como a crise econômica e a violência política do governo de Salvador Allende.
A proposta surge como um contraponto direto ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos, localizado em Santiago. Este último, criado no governo da ex-presidente Michelle Bachelet, tem como objetivo documentar as violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura militar de Augusto Pinochet (1973-1990).
A iniciativa reflete uma disputa pela memória histórica no Chile, onde o legado da ditadura de Pinochet ainda é um tema sensível e polarizador. A proposta do “Museu da Verdade” busca dar voz a uma perspectiva que, segundo seus defensores, foi marginalizada nos memoriais existentes. Conforme informação divulgada pela Folha, a proposta mira diretamente o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, em Santiago.
A Origem do Debate: Narrativas Históricas em Confronto
O projeto de lei para o “Museu da Verdade” foi apresentado por parlamentares do Partido Nacional Libertário, fundado pelo deputado Johannes Kaiser. A proposta argumenta que o museu exporia a “crise econômica, desabastecimento e violência política” do governo de Salvador Allende, buscando oferecer uma visão diferente do período que culminou no golpe de Estado com apoio dos Estados Unidos em 1973.
O golpe derrubou o governo de Allende, dando início a um regime de repressão política que resultou em torturas, desaparecimentos e a morte de pelo menos 4.000 pessoas. A figura de Augusto Pinochet, que liderou a ditadura até 1990, permanece central nesse debate histórico e político no Chile.
Cristóbal Rovira Kaltwasser, cientista político da Universidade do Chile, aponta que a direita chilena tem uma origem peculiar, marcada pela ditadura de Pinochet. Ele explica que, embora partidos de direita tenham buscado moderação na transição democrática, sempre existiram lideranças e eleitores que não concordaram com essa postura, como é o caso do presidente José Antonio Kast.
José Antonio Kast e a Ascensão da Nova Direita Chilena
O presidente chileno, José Antonio Kast, é visto por Kaltwasser como um símbolo dessa ala da direita que nunca aceitou a moderação. Durante sua carreira parlamentar, Kast se opôs a pautas de costumes, como o aborto e o casamento LGBTQIA+, além de reformas constitucionais. Ele chegou a fazer campanha pelo “Sim” para que Pinochet permanecesse no poder em 1989.
Kast posteriormente rompeu com a direita tradicional para fundar o Partido Republicano, com o objetivo declarado de deixar de ser a “direitinha covarde” e retornar às raízes autoritárias. A entrada de deputados como Johannes Kaiser no cenário político, segundo Kaltwasser, deslocou ainda mais o espectro à direita, tornando Kast, por comparação, relativamente mais palatável, embora suas posições programáticas permaneçam radicais.
A diferença entre Kast e Kaiser, na avaliação do pesquisador, reside mais na forma de apresentar as ideias e no grau de radicalidade, comparando o estilo de Kaiser ao de líderes como Jair Bolsonaro no Brasil e Javier Milei na Argentina, em contraste com o tom mais comedido de Kast.
Críticas ao Museu da Memória e a Disputa Cultural pela História
As bases partidárias de Kast e Kaiser frequentemente criticam o Museu da Memória, acusando-o de promover uma visão ideológica da história. No entanto, Kaltwasser ressalta que “o que não está em discussão é que violações de direitos humanos não são justificáveis”.
Propostas como o “Museu da Verdade” são vistas por críticos como tentativas indiretas de reabilitar a justificativa para o golpe militar, uma interpretação rejeitada pelos apoiadores do projeto. O deputado Diego Schalper, da Renovação Nacional, defende que é preciso “contar a história toda”, incluindo o contexto de violência política generalizada que precedeu o golpe de 1973.
Schalper, ao ser questionado sobre o regime de Pinochet, afirma que “sem dúvida” foi uma ditadura, mas enfatiza que “não podemos ter reflexões definitivas ou unilaterais sobre a história”. Ele condena as violações de direitos humanos, mas também reconhece que o governo Allende “não respeitou a Constituição”.
O Objetivo da Proposta: Uma Disputa Cultural de Longo Prazo
Kaltwasser acredita que o projeto do “Museu da Verdade” dificilmente obterá os votos necessários para ser aprovado, e que seu objetivo principal não é a aprovação legislativa, mas sim uma “disputa cultural”. O objetivo seria “deslocar os limites do que é considerado aceitável discutir publicamente”.
Apesar de não haver conquistas concretas a curto prazo, a disputa pela narrativa histórica é vista como um embate de longo prazo. Mais de três décadas após o fim da ditadura, o legado do regime militar permanece presente na sociedade chilena. Pesquisas indicam que cerca de 30% da população ainda tem uma visão positiva do regime.
Esse grupo, que esteve mais silencioso após a redemocratização, voltou a se sentir mais confortável para expressar suas opiniões com o surgimento de novas lideranças na direita chilena, evidenciando a persistente polarização em torno da memória do período. A proposta do “Museu da Verdade” é mais um capítulo nessa complexa discussão sobre o passado do Chile.





