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Ditadores e Filhos no Poder: Um Quinto das Democracias Elegeram Herdeiros Autoritários, Revela Pesquisador

Um quinto dos países que se democratizaram reelegeu ditadores ou seus filhos, diz pesquisador

A reeleição de figuras com passado autoritário ou de seus descendentes em nações recém-democratizadas é um fenômeno surpreendente, mas não incomum. Um estudo recente aponta que cerca de 20% desses países optaram por ex-líderes autoritários ou seus filhos para cargos de chefia.

O cientista político canadense James Loxton, professor na Universidade de Sydney, investigou o que ele chama de ‘herança autoritária’. Sua pesquisa, publicada no ‘Journal of Democracy’, explora as razões pelas quais partidos ou indivíduos ligados a ditaduras anteriores conseguem prosperar em regimes democráticos.

O estudo, que analisou países que passaram por processos de democratização após os anos 1970, também traça paralelos com cenários políticos atuais, incluindo o Brasil. A pesquisa sugere que a nostalgia por períodos autoritários, mesmo que idealizada, pode influenciar o voto popular. Conforme informação divulgada pelo Journal of Democracy, um quinto dessas nações elegeram ex-líderes autoritários ou seus filhos como presidentes ou primeiros-ministros.

A ‘Herança Autoritária’ e sua Persistência

James Loxton define ‘herança autoritária’ como a vantagem que partidos sucessores de ditaduras, ou os próprios ex-ditadores e seus filhos, podem obter ao se apresentarem em um contexto democrático. Exemplos no Brasil incluem Getúlio Vargas, que retornou ao poder em 1950 após ter instaurado o Estado Novo em 1937, e o PFL (atual União Brasil), originado da Arena, partido de apoio à ditadura militar.

O pesquisador destaca que essa dinâmica não é exclusiva do passado. Ele sugere que a popularidade de figuras como Flávio Bolsonaro, filho de Jair Bolsonaro, pode ser um exemplo contemporâneo desse fenômeno, mesmo que Jair Bolsonaro não tenha sido um ditador, mas sim um presidente com “tendências autoritárias” e condenado por tentativa de golpe, segundo investigações judiciais.

“Há paralelos claros entre Donald Trump nos Estados Unidos, Bolsonaro no Brasil e esse fenômeno dos ditadores e filhos de ditadores”, afirma Loxton, observando uma “nostalgia autoritária” no contexto brasileiro atual.

O Apelo do Legado Autoritário

A análise de Loxton revela que eleitores muitas vezes votam em candidatos com ligações autoritárias por terem uma visão positiva daquele período. No Peru, por exemplo, Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, frequentemente evoca o “legado positivo” de seu pai, mencionando estabilização econômica e pacificação nacional em sua plataforma.

Para os filhos de ditadores, negar o passado de seus pais não é uma opção viável. A estratégia, segundo Loxton, é abraçar o legado e esperar que isso ressoe com uma parcela significativa do eleitorado. A proximidade do resultado eleitoral de Keiko Fujimori em pleitos anteriores demonstra que metade do eleitorado peruano considerou sua candidatura atraente.

Partidos com raízes em regimes autoritários também podem se beneficiar de conexões empresariais fortes e redes de apoio estabelecidas, especialmente em países com eleições custosas, como o Brasil. Essas redes, muitas vezes construídas durante ditaduras, podem ser um trunfo eleitoral.

Nostalgia e Desinformação na Era Digital

A falha em punir ditadores, como em alguns casos no Brasil, pode levar à normalização de períodos autoritários. No entanto, Loxton se mostra cético quanto à punição como garantia de perda de apoio popular. Ele argumenta que o fim de regimes autoritários, muitas vezes marcado por crises econômicas e derrotas militares, pode ser um fator mais determinante para sua despopularização.

A “nostalgia autoritária” é potencializada pela capacidade de reescrever o passado, especialmente entre gerações que não viveram sob ditaduras. Lembranças idealizadas de segurança e emprego, mesmo que falsas, podem influenciar o voto.

A internet e as redes sociais amplificam esse fenômeno. O caso das Filipinas, com a eleição de Ferdinand Marcos Jr., filho do ditador Ferdinand Marcos, é um exemplo extremo. Uma “exército de internautas” espalhou desinformação e teorias conspiratórias para justificar o legado de corrupção e violações de direitos humanos de seu pai.

Democracia Não Garante Bom Governo

Loxton ressalta a importância de entender que democracia e bom governo são espectros distintos. Um regime pode ser autoritário e governar bem, como Singapura, ou ser democrático e mal governado. Eleitores frustrados com problemas em suas democracias podem erroneamente associar esses problemas à própria democracia, imaginando que o autoritarismo traria soluções.

No contexto brasileiro, a polarização em torno de figuras como Jair Bolsonaro e seu filho Flávio evidencia essa “nostalgia autoritária”. A possibilidade de metade da população brasileira idealizar os anos Bolsonaro, assim como a nostalgia pelo antigo regime militar, demonstra a persistência desse fenômeno. A proximidade de resultados em eleições futuras, como no Peru, sugere que essa divisão de opiniões deve continuar.

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