Eleições em Israel e Palestina: Incertezas Pós-7 de Outubro Moldam Futuro em Meio a Conflitos e Adiamentos
Israelenses se preparam para eleger um novo Parlamento, um pleito que pode marcar o fim da era de Binyamin Netanyahu. Paralelamente, palestinos enfrentam mais um adiamento de suas eleições legislativas e presidenciais, originalmente previstas para novembro e agora remarcadas para setembro de 2027.
Ambos os processos eleitorais estão profundamente marcados pelos traumas e pelas consequências políticas, econômicas e sociais desencadeadas pelos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023. Naquele dia, 1.200 pessoas morreram e 251 foram sequestradas, culminando na subsequente guerra na Faixa de Gaza, que já deixou cerca de 75 mil mortos.
A situação complexa é analisada por especialistas como um fator que beneficia a Netanyahu, apesar de ele ser apontado, em certa medida, como responsável pelos eventos de 7 de Outubro. “Netanyahu se beneficia das múltiplas frentes de guerra. Ao mesmo tempo que é apontado até certo ponto como responsável pelo 7 de Outubro, os conflitos não acabaram”, afirma o jornalista Yaakov Katz, membro do Jewish People Policy Institute e ex-editor-chefe do The Jerusalem Post.
Katz, coautor do livro “While Israel Slept” (Enquanto Israel Dormia), que investiga falhas de inteligência e governamentais que podem ter facilitado os ataques, explica a dicotomia no eleitorado israelense. “Quando os israelenses forem votar, eles farão uma pergunta simples: ‘Quem vai me manter seguro?’”, diz. “Muita gente olha para Netanyahu e acha que ele nos manterá seguros e pensa: ‘deixe-o terminar o que ele tem que fazer’. Para outros, é uma aposta muito grande jogar com a nossa segurança.”
Segurança como Prioridade e o Futuro do Estado Palestino
O ministro da Educação, Yoav Kisch, reforça o argumento da continuidade do governo Netanyahu como essencial para a segurança de Israel. Ele defende que qualquer parceiro de coalizão futura deve concordar com o controle de fronteiras, a prevenção de ameaças e o uso da força militar quando necessário.
Kisch também se posiciona contra a criação de um Estado palestino. “Este governo vai continuar conduzindo a agenda de Israel com força e firmeza, e garantir que ninguém nos ameace”, afirmou. “O boicote a Netanyahu e ao Likud [partido do premiê] causou enormes danos ao Estado de Israel. Acredito que isso precisa acabar agora.” O incumbente, por sua vez, busca desviar a responsabilidade e se beneficia da indefinição dos conflitos contra o Hamas e o Hezbollah.
Críticas e a Busca por Coexistência no Cenário Israelense
Muhammad Abu Elhega, membro do Knesset e representante da ala árabe do partido de oposição Yesh Atid, critica duramente a extrema direita na coalizão governista. “Estamos trabalhando duro para vencer a eleição porque devemos substituir esse governo fascista e racista”, declara o parlamentar muçulmano, que se orgulha de fazer parte do Estado de Israel.
Segundo Abu Elhega, políticas divisionistas e discursos inflamados buscam deslegitimar a cidadania árabe e minar a coexistência. “Vivemos juntos aqui árabes, judeus, cristãos e muçulmanos, mas temos um problema: nossos políticos. Eles se esforçam para nos dividir”, lamenta. Ele também critica correntes radicais dentro do próprio espectro árabe que rejeitam a participação institucional no Knesset e a aproximação árabe-palestina com Israel.
Instabilidade e Ceticismo no Lado Palestino
Do outro lado da fronteira, o medo e a instabilidade política também são fatores determinantes. O adiamento das eleições palestinas gerou revolta na Cisjordânia, segundo Khalil Shikaki, diretor do Centro Palestino de Pesquisa Política e de Opinião Pública. “Com o mandato presidencial expirado há anos e o Parlamento dissolvido por meio de manobras institucionais, a esmagadora maioria da população palestina vê o adiamento com ceticismo”, diz.
Shikaki descreve um cenário explosivo na Cisjordânia, marcado pelo “terrorismo de colonos, os postos de controle e bloqueios”. Ele aponta uma “enorme quantidade de ódio entre palestinos e judeus israelenses”, que não tem a ver com religião, mas sim com a animosidade avassaladora.
O pleito palestino esbarra em obstáculos práticos e políticos, como a recusa de cooperação do governo israelense, a proibição de trânsito logístico para Gaza e impasses em Jerusalém Oriental. “Os palestinos não conversam com o atual governo israelense, nem um pouco disposto a cooperar na organização das nossas eleições”, afirma Shikaki, que espera uma nova coalizão mais interessada em fortalecer a Autoridade Palestina.
Volatilidade no Apoio ao Hamas e a Ascensão de Novas Lideranças
Pesquisas indicam a volatilidade no apoio ao Hamas. Após o 7 de Outubro, o respaldo ao grupo na Cisjordânia saltou de 12% para 40%, caindo para cerca de 18% atualmente, segundo Shikaki. Diante da rejeição às lideranças tradicionais, cerca de 55% do eleitorado palestino se declara indeciso.
Nesse vácuo, o empresário Bashar al-Masri surge como uma surpresa, liderando intenções de voto. Contrariando o ceticismo histórico com líderes econômicos, Masri remodela o cenário interno. Marwan Barghouti, por sua vez, mantém-se como a figura política individual mais popular.
Samer Sinijlawi, ex-membro do Fatah, critica o adiamento das eleições, atribuindo-o ao receio do presidente Mahmoud Abbas de perder poder. “Por que arriscar ir às urnas se suas chances são zero? A coalizão dentro do Fatah também não quer mudar o status quo”, diz. Ele critica a cumplicidade da comunidade internacional em aceitar justificativas vazias.
A Pior Crise Desde 1948 e a Visão de um “Grande Israel”
Mohammad Shtayyeh, ex-primeiro-ministro da Autoridade Palestina, descreve a conjuntura atual como a pior emergência nacional desde 1948. Ele cita a devastação em Gaza e a expansão intensificada de assentamentos ilegais na Cisjordânia, que causam uma “anexação silenciosa”.
Shtayyeh acusa o atual governo israelense, pautado pelo “sionismo religioso”, de atuar para destruir a perspectiva da solução de dois Estados e forçar a transferência populacional. “O sionismo religioso afeta tanto o povo secular israelense quanto nós. Devemos analisar a situação sob a perspectiva da tentativa de criar um Grande Israel”, diz ele, observando o resultado das urnas.
“O pior cenário para nós é a atual coligação permanecer no poder ou um regresso de Netanyahu com as mesmas políticas. Precisamos de um primeiro-ministro em Israel que esteja pronto para sentar e conversar sobre a paz com os palestinos”, conclui.
Sinijlawi reitera que a polarização generalizada é o maior entrave. “Infelizmente, a radicalização agora é um fenômeno comum em ambos os lados da cerca. É um desafio. Precisamos combater essa pandemia”, alerta. “Você está em um filme antigo se imaginar que esse conflito é entre israelenses e palestinos. Hoje o verdadeiro conflito é entre moderados versus radicais e extremistas dos dois lados.”





