Eleições na América Latina Sob Suspeita: Questionamentos de Esquerda e Direita Viram Regra e Geram Instabilidade
As recentes eleições no Peru e na Colômbia expõem uma preocupante tendência na América Latina: o questionamento dos resultados eleitorais por parte dos candidatos derrotados, independentemente de sua orientação política. Em ambos os países, vitórias apertadas por margens mínimas levaram a alegações de irregularidades, alimentando a polarização e a instabilidade em nações já fragilizadas.
Essa onda de desconfiança, que remete a casos como os de Donald Trump nos Estados Unidos e Jair Bolsonaro no Brasil, levanta sérias questões sobre a saúde democrática da região. Especialistas alertam para o risco de um ciclo vicioso, onde a negação da derrota se torna uma estratégia política comum, minando a confiança nas instituições.
Apesar das denúncias, observadores internacionais e locais, como missões da União Europeia, apontam a ausência de fraudes generalizadas, registrando apenas falhas pontuais e problemas logísticos. No entanto, a percepção de que “quem perde a eleição diz que foi roubada” parece se consolidar, gerando dúvidas na sociedade e no processo democrático em toda a América.
Peru: Votos no Exterior e Falhas Logísticas no Centro da Controvérsia
No Peru, a candidata Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, venceu o candidato de esquerda Roberto Sánchez por uma margem de cerca de 50 mil votos. A equipe de Sánchez levantou suspeitas sobre os votos enviados do exterior, que foram cruciais para a vitória de Fujimori. A principal alegação foca na digitalização das atas eleitorais, que, segundo a campanha de Sánchez, não ocorreu antes do transporte para o Peru no segundo turno, diferentemente do primeiro.
Apesar de o Ministério das Relações Exteriores peruano afirmar que o procedimento não contraria as regras, a oposição fala em “v”cios irreparáveis” e “fraude eleitoral”. Renato Ribeiro de Almeida, doutor em direito eleitoral pela USP e observador internacional, notou um processo com “muitas falhas” no Peru, mas reconhece a seriedade das autoridades eleitorais, apesar da falta de um nível de organização institucional comparável ao brasileiro.
Colômbia: Influência de Trump e Desobediência Civil como Resposta
Na Colômbia, a eleição do ultradireitista Abelardo de la Espriella sobre o candidato apoiado pelo atual presidente, Gustavo Petro, ocorreu com a menor diferença já registrada no país: 0,96%, pouco mais de 250 mil votos. Após o primeiro turno, Petro e o candidato Iván Cepeda já haviam falado em irregularidades. Após a derrota no segundo turno, Petro chegou a afirmar que o verdadeiro vencedor foi seu aliado.
Cepeda, por sua vez, concentra suas acusações no apoio declarado de Donald Trump a Espriella, afirmando que recorrerá à desobediência civil para contestar o resultado. Trump, em sua rede social Truth Social, declarou “apoio completo e total” a Espriella após o primeiro turno, ilustrando a influência externa que pode afetar pleitos na região.
Um Padrão Regional de Questionamentos e a Influência dos EUA
A socióloga Francesca Emanuele, do Center for Economic and Policy Research (CEPR), que acompanhou as eleições no Peru, destaca a pouca discussão sobre como Washington pode influenciar um eleitorado dependente dos EUA. Ela aponta um “padrão que vimos nas últimas eleições na América Latina por parte de Washington”, citando o pleito em Honduras em 2025, onde o conservador Nasry Asfura foi eleito após ameaças de Trump de cortar ajuda financeira.
Essa onda de questionamentos preocupa especialistas como Renato Almeida. “Isso gera uma d”vida na sociedade e no processo democrático em todas as Américas. Parece que virou uma regra – quem perde a eleição diz que foi roubada”, afirma. Ele ressalta que o fenômeno não é uma particularidade da direita ou da esquerda, mas sim um reflexo de um momento de profunda polarização e desconfiança nas instituições democráticas na região.





