A América em 2026: Uma Nação Cristã ou Um Mosaico de Crenças e Conflitos?
Os Estados Unidos se aproximam de seu 250º aniversário, em 2026, mas a celebração é marcada por intensos debates sobre o próprio significado de sua fundação. A Casa Branca, sob a administração de Donald Trump, organizou eventos como o “Reconsagrando 250: Jubileu Nacional de Oração, Louvor e Ação de Graças”, promovendo a ideia de que os EUA foram fundados como uma nação cristã.
Discursos de políticos republicanos e líderes evangélicos, como o vice-presidente J. D. Vance e o pastor Gary Hamrick, enfatizaram a crença de que a fé cristã é o alicerce da identidade americana. Vance afirmou que “a moralidade e a religião que formaram a identidade americana eram firmemente cristãs”.
No entanto, essa visão é contestada por historiadores como Alan Taylor, da Universidade da Virgínia. Ele argumenta que, embora os valores cristãos tenham sido usados para mobilizar apoio à revolução, os próprios fundadores não eram particularmente religiosos. A Constituição, ressalta Taylor, “não menciona Deus em lugar algum”, o que lança uma luz diferente sobre o legado americano. Essas divergências sobre a fundação do país estão sendo documentadas e discutidas, como em eventos organizados pela Casa Branca que buscam resgatar uma narrativa específica da história americana, conforme informações divulgadas pela Folha de S.Paulo.
A Controvérsia da Fundação Cristã
O pastor Gary Hamrick, da igreja Cornerstone Chapel, defende que a Declaração da Independência faz referência a Deus quatro vezes e que os direitos inalienáveis vêm do Criador. Ele reconhece que os EUA são “uma mistura de culturas, temos muitas crenças e religiões”, mas insiste que “é inegável que nossas raízes históricas foram formadas pelo cristianismo”. Hamrick participa de iniciativas como o documentário “By Dawn’s Early Light”, que critica o que chama de “viés sistêmico contra cristãos” no governo Biden.
Em contrapartida, o historiador Alan Taylor questiona a narrativa de uma fundação estritamente cristã. Ele aponta que muitos dos fundadores, como Alexander Hamilton, eram deístas ou agnósticos, e que a Constituição foi deliberadamente redigida para garantir a separação entre Igreja e Estado. Taylor cita um relato apócrifo onde Hamilton teria respondido a uma pergunta sobre a ausência de Deus na Constituição com um enigmático “Nós esquecemos!”.
A Terra como Motor da Revolução
Além do debate religioso, outra visão historiográfica tem ganhado força, enfatizando o papel crucial dos povos indígenas e a disputa por terras na origem da independência americana. Colin Calloway, historiador do Dartmouth College, explica que a expansão das colônias para o oeste era um ponto central de tensão com a Grã-Bretanha, especialmente após a Guerra dos Sete Anos.
A Coroa Britânica, em 1763, tentou frear a expansão para além dos Apalaches, reconhecendo a área como reserva indígena. Essa medida, segundo Calloway, transformou figuras como George Washington, que possuía investimentos em terras na região, em opositores do Império Britânico. A tentativa de proteger a terra indígena é vista como um fator direto para a Revolução Americana.
Expansão e Consequências para os Povos Indígenas
Taylor complementa que a necessidade de terra para uma população em rápido crescimento nas colônias, que dobrava a cada 22 anos, era um motor poderoso para a expansão. A restrição imposta pela Coroa e a criação de novos impostos, que as elites coloniais sentiam que afetavam seu futuro sem sua devida representação, foram fatores cruciais para a revolta. Calloway descreve a expansão americana pós-independência como um “rolo compressor sobre a terra indígena”, culminando em leis como a de Remoção Indígena em 1830, que deportou dezenas de milhares de pessoas, um ato que hoje seria classificado como limpeza étnica.
O Ataque à História e a Busca por uma Narrativa Patriótica
A ênfase no colonialismo, na expulsão indígena e em outros capítulos menos gloriosos da história americana tem sido alvo de críticas por parte do governo Trump. Ele criticou museus do Instituto Smithsonian por retratarem os EUA de forma excessivamente negativa, com destaque para a escravidão e outros “aspectos sombrios”.
Um decreto intitulado “Restaurando a Verdade e a Sanidade à História Americana” determinou que o governo altere descrições de monumentos que “critiquem os americanos do passado”, buscando promover uma visão mais “patriótica” da história. Calloway observa que “o governo e seus aliados querem usar a história como arma, como ferramenta para reforçar suas ideias — de que a história deveria ser necessariamente patriótica”.





