Egressos do Sistema Prisional Lideram Iniciativa Global para Repensar Segurança Pública
A educadora Dandara Zainabo, 28 anos, e Rodrigo Sabiah são os dois brasileiros que integram a Global Freedom Consulting Agency, uma consultoria internacional pioneira formada por egressos do sistema prisional. A iniciativa, lançada pela ONG Incarceration Nations Network (INN), visa oferecer perspectivas únicas e práticas para a reforma da segurança pública em diversos países.
A escolha da Cidade do Cabo, na África do Sul, para o lançamento da agência não foi aleatória. O local, com seu histórico de segregação, simboliza a ambição da consultoria em romper barreiras e preconceitos. A proposta é clara: trazer para o centro do debate sobre segurança pública quem conhece a realidade do cárcere por experiência própria.
Esta consultoria representa uma mudança de paradigma, colocando a vivência de quem esteve preso como ferramenta fundamental para a elaboração de políticas públicas mais eficazes e humanas. A INN, financiada por organizações filantrópicas, abre portas para que governos e instituições busquem soluções baseadas em quem sentiu na pele os efeitos do encarceramento. Conforme divulgado pela INN, a agência reúne 34 consultores de 19 países, todos selecionados por seus projetos de destaque em justiça e segurança.
O Poder da Experiência Prisional na Formulação de Políticas Públicas
Baz Dreisinger, fundadora da INN e professora na Escola John Jay de Justiça Criminal, destaca a importância inédita dessa iniciativa. “Esses profissionais poderão atuar junto a governos interessados em desenvolver políticas públicas de justiça com base em lideranças que conhecem, na prática, os efeitos do encarceramento”, afirma Dreisinger. A meta é transformar vidas e atravessar “muros e fronteiras” com conhecimento prático.
A Global Freedom Consulting Agency foca em áreas como a justiça restaurativa, que prioriza a reparação de danos em vez de apenas a punição. Essa abordagem busca envolver vítimas, autores de crimes e a comunidade em processos de diálogo para construir acordos e remediar impactos emocionais e materiais. A consultoria pode ser contratada por fundações, think tanks, instituições acadêmicas, agências governamentais e até administrações prisionais.
Dandara Zainabo: Voz Trans pela Humanização do Sistema Prisional
Dandara Zainabo, que passou cinco anos presa no Rio de Janeiro, transforma sua traumática experiência, inclusive a de ter dividido cela em unidade masculina por ser mulher trans, em ativismo político. Ela critica o debate sobre segurança pública, que, segundo ela, é “centrado em mecanismos de punição, não de proteção”. Para Dandara, autoridades falham ao ignorar fatores como raça, gênero e desigualdade na formulação de políticas.
Seu trabalho se concentra na criação de políticas de apoio para pessoas trans, dentro e fora das prisões. No Brasil, ela defende a criação de um censo penitenciário nacional específico para a população trans, visando planejar espaços mais acolhedores. Atualmente, dados sobre essa minoria no sistema carcerário brasileiro são incompletos e subnotificados, muitas vezes por conta de categorias binárias de gênero nos registros.
Dandara evita perguntar sobre os crimes cometidos por egressos, pois acredita que o olhar sobre essas pessoas “precisa ser humanizado”. Ela descreve o período em que esteve presa como uma “máquina de ódio” que pode transformar detentos em “bombas para a sociedade”. Sua experiência reforçou sua defesa por um sistema prisional menos punitivo e mais voltado à correção, educação e reintegração social. Após sair da prisão, fundou a Associação Mama Thula, que oferece apoio jurídico a mulheres cis e trans em conflito com a lei.
Rodrigo Sabiah: Empreendedorismo Social para a Reintegração
Rodrigo Sabiah, o outro brasileiro na consultoria, iniciou sua jornada de reintegração após deixar a prisão em 2012. Ele fundou uma cooperativa de reciclagem para gerar trabalho para ex-detentos e o projeto Reciclando Vidas. Este projeto promove ações em comunidades, escolas e prisões focadas em empreendedorismo social, reintegração e justiça restaurativa, além de palestras sobre sua trajetória.
Números Alarmantes do Encarceramento Global
A INN aponta que cerca de 11 milhões de pessoas estão encarceradas globalmente, um número em contínuo crescimento. Entre 2008 e 2011, a população prisional aumentou em 78% em muitos países, e de 2000 a 2016, houve um crescimento de quase 20%. Desse total, mais de 3,2 milhões aguardam julgamento e quase 1 em cada 5 presos cumpre pena por crimes relacionados a drogas, sendo que 83% desses casos envolvem apenas posse.
Dandara descreve o sistema prisional como uma “máquina mortífera”, exemplificando com a situação do Cecot em El Salvador, onde “as pessoas já não têm mais identidade porque são iguais”. Ela enfatiza que as soluções existem e são concretas porque vêm de quem “viu de dentro”. Para ela, “não há nada melhor do que destruir a violência quando você é alguém que sentiu ela”.





