Ultradireitista suíço Patrick Frei é acusado de estuprar enteada sedada mais de 40 vezes; mãe e filha polonesas enfrentam ameaça de deportação
Um escândalo abala a Suíça com a denúncia contra Patrick Frei, ex-político local do Partido do Povo Suíço (SVP), acusado de drogar e estuprar sua enteada, então criança, em mais de 40 ocasiões. Os crimes teriam ocorrido sob sedação da vítima, dificultando até mesmo sua memória dos abusos. A mãe da menina, companheira de Frei na época, também teria sido vítima de estupro e outras agressões. As acusações são múltiplas, incluindo tentativa de homicídio e abuso sexual infantil.
O caso ganha contornos ainda mais chocantes com a reação das autoridades locais. Em vez de oferecerem o suporte necessário à mãe e à filha, que são cidadãs polonesas, o município de Untersiggenthal e o departamento de imigração de Aargau negaram assistência social integral e ordenaram que deixem o país. A mãe, Iwona L., e a filha, Paula L., agora com 18 anos, relatam sentir-se “vitimizadas duas vezes, duplamente traumatizadas”, tanto pelo agressor quanto pelas autoridades suíças.
Patrick Frei, especialista em TI e com 57 anos, ocupava um cargo no parlamento cantonal de Aargau até sua prisão em 2023. Durante sua carreira política, ele frequentemente culpava estrangeiros pela violência contra mulheres e, ironicamente, pouco antes de ser detido, assinou uma petição por medidas mais rigorosas contra pedófilos. O Ministério Público suíço pede prisão perpétua para Frei, que nega grande parte das acusações. Conforme informação divulgada pelo jornal suíço Tages-Anzeiger, as vítimas decidiram tornar seus nomes públicos para encorajar outras vítimas de violência sexual.
Acusações graves contra ex-político do SVP
A acusação formal contra Patrick Frei demorou quase três anos para ser apresentada, devido à complexidade e à necessidade de análise de um extenso material de imagens e vídeos apreendidos. O Ministério Público detalha que Frei teria sedado a filha de 14 anos de sua então companheira para cometer os estupros, que teriam sido registrados por ele mesmo em vídeos. A lista de crimes imputados a Frei é extensa e inclui múltiplas tentativas de homicídio, estupros, coerção sexual, atentado ao pudor, atos sexuais com crianças, agressões, crimes relacionados a drogas, pornografia e violação de privacidade.
As vítimas corriam risco de morte devido à sedação, conforme aponta o Ministério Público. Frei, que atuava como empregador de Iwona L., negociava com ela um contrato de trabalho que, segundo a acusação, poderia ter sido uma farsa para mantê-la na Suíça. A mãe e a filha eram financeiramente dependentes dele, e após sua prisão, continuaram morando na mesma casa, no mesmo quarto onde os abusos ocorreram, o que Paula L. descreveu como “terrível”.
Mãe e filha polonesas enfrentam deportação e negam assistência social
Após a prisão de Frei, Iwona L. solicitou assistência social ao município de Untersiggenthal, mas o caso foi encaminhado ao departamento de imigração, que suspeitou de fraude no contrato de trabalho. Como resultado, as autoridades decidiram que mãe e filha, cidadãs polonesas, deveriam deixar a Suíça sob ameaça de deportação forçada. O departamento de imigração considerou que as acusações de agressão sexual não constituíam uma “grave dificuldade pessoal” para justificar sua permanência.
Além da ameaça de deportação, o município de Untersiggenthal reduziu o auxílio emergencial concedido às mulheres para cerca de mil francos suíços por mês, alegando que o status de residência delas estava sob revisão. Iwona L. também foi multada em 2.160 francos suíços por supostamente enganar as autoridades. Um especialista em direito previdenciário, Marc Spescha, classificou a ameaça de deportação como um “grave erro administrativo”, uma vez que, como cidadãs da União Europeia, elas teriam direito à residência. Iwona L. sofreu um colapso nervoso e está internada em uma clínica psiquiátrica.
Partido do Povo Suíço tenta se distanciar do caso
O Partido do Povo Suíço (SVP) busca se desvincular das ações de Patrick Frei, com o líder do grupo parlamentar no cantão de Aargau, Pascal Furer, afirmando que Frei renunciou ao partido imediatamente após sua prisão. Para a legenda, os atos do ex-parlamentar não têm relação com seu cargo político. O SVP nacional considera o caso um incidente isolado e chocante, sem necessidade de ações legislativas.
Em contrapartida, o Partido Social-Democrata (SP) do cantão de Aargau exigiu uma investigação transparente e medidas para fortalecer a proteção às vítimas. A conselheira nacional Tamara Funiciello anunciou iniciativas para endurecer a legislação de imigração em relação a esses casos. O município e o cantão se recusam a comentar o processo em andamento. Mãe e filha recorreram da decisão de deportação ao Tribunal Administrativo de Aargau.





