Um encontro improvável: biólogo e ex-guerrilheiros unidos pela observação de aves após conflito na Colômbia
A Colômbia, marcada por décadas de conflito armado, testemunha um capítulo singular de reconciliação. Diego Calderón-Franco, um biólogo que viveu a dura realidade do sequestro pelas Farc, hoje lidera expedições de observação de aves ao lado de ex-combatentes do grupo. A iniciativa, impulsionada pelo Acordo de Paz, busca transformar a memória do conflito em uma ponte para o entendimento e a preservação ambiental.
Em 2004, enquanto realizava uma expedição científica na Serranía del Perijá, Diego foi sequestrado pelas Farc. Passou 88 dias em cativeiro, uma experiência que o marcou profundamente. Contudo, longe de cultivar rancor, o Acordo de Paz, assinado em 2016, abriu um caminho inesperado: o reencontro com alguns de seus algozes, agora como colegas em projetos de ecoturismo.
Essa jornada de transformação e esperança é um reflexo do potencial da Colômbia em reescrever sua história, utilizando a riqueza de sua biodiversidade como ferramenta para a cura e a união. Conforme informação divulgada pelo próprio Diego Calderón-Franco, a iniciativa é uma tentativa de apresentar outro ângulo do conflito e, a partir disso, “deixar as pessoas desconfortáveis com respeito e carinho”.
Do cativeiro à paixão pela natureza
Diego iniciou seus estudos em biologia na Universidade de Antioquia em 2000. Na época, a guerra civil tornava as expedições científicas em áreas rurais um desafio constante. Ele relata que era comum, para jovens estudantes de 18 a 20 anos, serem parados por grupos armados. Cartas da universidade, atestando a natureza acadêmica das viagens, eram o único salvo-conduto.
O sequestro ocorreu durante uma expedição planejada para a Serranía del Perijá, uma região rica em biodiversidade e pouco explorada devido ao conflito. A expedição, que contava com botânicos, ictiólogos e ornitólogos, foi interrompida por membros da Frente 41 das Farc. Diego descreve o momento em que os guerrilheiros se identificaram e anunciaram que não poderiam ir embora.
Após dias de incerteza, o comandante das Farc decidiu verificar a identidade dos estudantes. A liberação de Diego só aconteceu após 88 dias de cativeiro, um período que ele descreve como uma sensação de regressão à infância, dependendo de outros para necessidades básicas. Apesar da dificuldade, ele buscou manter uma perspectiva estoica, focando na beleza natural ao redor e nas atividades científicas.
O Acordo de Paz e o renascimento
Com o término dos estudos em 2007, Diego dedicou-se ao turismo e à observação de aves. A assinatura do Acordo de Paz em 2016 despertou nele o desejo de fazer algo concreto pela reconciliação. Ele viu uma oportunidade única em um fundo criado para explorar áreas antes inacessíveis devido ao conflito.
Uma dessas áreas era em Antioquia, onde ele participou de uma expedição com cerca de 60 pessoas, incluindo ex-guerrilheiros, estudantes, vítimas e observadores internacionais. Essa experiência foi o ponto de partida para uma série de capacitações e expedições de observação de aves com ex-combatentes. Ele já realizou cerca de dez desses encontros.
Em um desses encontros, Diego reencontrou Omar, um dos guerrilheiros que participou de seu sequestro. Omar, hoje diretor de uma oficina de confecções, compartilhou uma história tocante: ele contou que uma das primeiras professoras de sua vida foi uma refém que ensinou dez guerrilheiros a ler e escrever. Essa troca demonstra como as experiências passadas, mesmo as dolorosas, podem gerar aprendizados e conexões inesperadas.
Aves como elo de conexão e esperança
Diego Calderón-Franco acredita que a observação de aves se tornou um poderoso elo entre ele e os ex-guerrilheiros. Ele relata que, em algumas ocasiões, ex-combatentes expressaram surpresa e alívio ao ver que ele não os odiava nem os agredia, mesmo após o sequestro. Essa aceitação mútua é fundamental para o processo de cura e reconciliação.
A iniciativa de Diego visa, portanto, ir além da simples observação de aves. É uma forma de promover o diálogo, o respeito e a compreensão, mostrando que é possível construir um futuro em que o passado não seja um obstáculo intransponível. A paixão pela natureza e o desejo de paz unem pessoas de diferentes lados do conflito.
Ele enfatiza que a falta de oportunidades é uma das raízes do conflito armado na Colômbia. Ao oferecer alternativas e caminhos de reintegração, como o ecoturismo e a conservação ambiental, é possível romper ciclos de violência e construir uma sociedade mais justa e pacífica. As aves, com sua liberdade e beleza, servem como um símbolo inspirador dessa transformação.





