Flávio Augusto: a saga de um empreendedor que transformou desafios em império bilionário no Brasil
A história de Flávio Augusto, aos 54 anos, é um verdadeiro estudo de caso sobre resiliência e visão de negócios no Brasil. Hoje, com o grupo educacional Wiser e a escola de inglês Wise Up consolidados, o caminho para o sucesso foi pavimentado com apostas arriscadas, recomeços e uma notável capacidade de adaptação.
O jovem Flávio Augusto, que um dia viajava de ônibus pelo Rio de Janeiro para vender cursos de inglês e usava telefones públicos para prospectar clientes, personifica a superação. Sua trajetória desmistifica a ideia de um caminho linear para o topo, mostrando que os desvios e as dificuldades podem ser os maiores catalisadores do sucesso.
A busca por estabilidade, que o levou a tentar a carreira militar no Colégio Naval, foi frustrada por sua própria natureza inquieta e insubordinada. Essa experiência, no entanto, se tornou um ensinamento fundamental: a estabilidade, para ele, é uma ilusão. A faculdade de Ciência da Computação também ficou pelo caminho, mas as vendas, inicialmente um meio, tornaram-se o fim.
Uma aposta audaciosa no cheque especial para fundar a Wise Up
Em 1995, Flávio Augusto e sua esposa deram um passo ousado: recorreram a R$ 20 mil do cheque especial, com juros exorbitantes de 12% ao mês, para abrir a primeira unidade da Wise Up. O valor mal cobria os custos iniciais de reforma, aluguel e contratação de equipe. Um detalhe curioso é que o próprio Flávio Augusto não falava inglês fluentemente na época, delegando a parte acadêmica a profissionais contratados, enquanto focava em vendas e análise de mercado.
A tese por trás do negócio era clara: com a economia brasileira se abrindo e a chegada de multinacionais, havia uma demanda crescente por comunicação em inglês para ascensão profissional, e o público não queria esperar anos para aprender. A Wise Up propôs um programa de 18 meses, rompendo com o padrão do mercado.
A história do cheque especial é uma das mais emblemáticas de sua carreira, mas Flávio Augusto ressalva a estratégia. Conforme relatado à Folha de S. Paulo em 2014, ele não aconselharia ninguém a repetir o feito, considerando-o “tecnicamente desaconselhável”.
O sucesso inicial foi estrondoso. Em um ano, a primeira unidade já contava com mil alunos, e em oito meses uma filial foi aberta na Avenida Paulista. Em apenas três anos, a rede somava 24 escolas próprias e mais de mil funcionários. O modelo de franquias, implementado em 2000, expandiu a operação para 396 unidades antes de sua venda.
Da aquisição de um time de futebol à recompra do próprio negócio
A expansão, contudo, não foi isenta de percalços. Em 2008, já com patrimônio considerável, Flávio Augusto sofreu uma perda de cerca de R$ 12 milhões na Bolsa de Valores devido à crise financeira, de um patrimônio estimado em R$ 15 milhões na época.
Em 2013, a Wise Up foi vendida para a Abril Educação por R$ 877 milhões. A redução drástica na carga de trabalho semanal, que chegava a 60 horas, durou pouco. Morando nos Estados Unidos, Flávio Augusto observou o crescimento do futebol nos EUA, identificando uma oportunidade de negócio inesperada.
Poucos meses depois, adquiriu o Orlando City, clube de futebol da Flórida, que posteriormente passou a competir na Major League Soccer (MLS). Em 2021, o clube foi vendido por um valor estimado entre US$ 400 milhões e US$ 450 milhões.
Dois anos após vender a Wise Up, Flávio Augusto a recomprou por cerca de R$ 390 milhões. Segundo ele relatou à Forbes, a empresa estava menor, com o EBITDA em queda e uma inadimplência de 42% após uma mudança no sistema de cobrança. Ele investiu US$ 16 milhões nos primeiros dois meses para reerguer o negócio, um trabalho que levou três anos para consolidar a operação.
A pandemia impulsiona a transformação digital da Wise Up
A pandemia de Covid-19 representou mais um grande teste. Com cerca de 400 escolas presenciais, a Wise Up precisou acelerar a migração para o digital, um processo que já havia iniciado com o lançamento de uma plataforma online em 2019.
Flávio Augusto orientou franqueados a devolverem imóveis e focarem no ambiente digital. Cerca de cem escolas foram desativadas, e parte das remanescentes se converteram em franquias online. Essa transição resultou em um aumento expressivo na base de alunos, que saltou de aproximadamente 80 mil para 400 mil.
A Wise Up passou a integrar a Wiser, um grupo educacional que reúne diversas marcas. Em janeiro de 2026, a Wiser apresentava mais de 500 mil alunos, faturamento de R$ 610 milhões e EBITDA de R$ 220 milhões, segundo informações divulgadas pela companhia ao Brazil Journal.
O “custo Brasil” e a resiliência do empreendedor
Uma das convicções de Flávio Augusto é que empreender no Brasil exige lidar com um “custo Brasil” elevado, marcado pela burocracia, complexidade tributária e ineficiência estatal. A experiência nos Estados Unidos, com sua governança e segurança jurídica, oferece um contraste, proporcionando previsibilidade para investimentos de longo prazo.
Apesar dos entraves, Flávio Augusto considera o Brasil um “mercado extraordinário”, que, embora encareça decisões, oferece escala, consumo e espaço para inovação.
Aos 54 anos, Flávio Augusto segue buscando novos desafios
Em 2019, Flávio Augusto declarou à Forbes a intenção de encerrar sua carreira empresarial aos 50 anos para se dedicar a projetos sociais. No entanto, a inquietação empreendedora o manteve ativo.
Recentemente, em 2026, ele mencionou uma “última jornada” com a criação de uma liga de negócios para conectar empresários em grupos de mentoria. O projeto já conta com 10,3 mil clientes ativos em maio, demonstrando uma constante busca por novos empreendimentos.
Aos 54 anos, Flávio Augusto encara o trabalho como diversão. O jovem que um dia sonhou em mudar de vida cruzando o Rio de ônibus, conquistou a liberdade financeira, mas escolheu continuar construindo, provando que a paixão por empreender é um motor poderoso.





