ONU aponta persistência da fome global e riscos de retrocesso devido a conflitos e mudanças climáticas
Um cenário preocupante se desenha no combate à fome mundial. Apesar de uma ligeira melhora, a Organização das Nações Unidas (ONU) alertou que cerca de 645 milhões de pessoas enfrentaram a fome em 2025, o que representa 7,8% da população global. Este avanço, embora positivo, encontra-se sob forte ameaça de retrocesso.
As consequências da guerra no Oriente Médio e os impactos cada vez mais severos das mudanças climáticas são os principais vilões que podem comprometer o progresso. A ONU, através da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), divulgou um relatório que acende um alerta para a comunidade internacional.
A situação é particularmente crítica no continente africano, onde 20% da população sofre de subnutrição crônica. Este dado, segundo o relatório anual, evidencia a urgência de ações mais contundentes e direcionadas para as regiões mais vulneráveis, conforme divulgado pela ONU nesta terça-feira (21).
África no epicentro da fome e desafios para o futuro
O relatório da FAO destaca que o epicentro da fome deslocou-se da Ásia para a África. David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO, explicou que, embora países como a China e a Índia tenham avançado significativamente no combate à fome, a África enfrenta desafios crescentes. Conflitos em regiões como o Sudão, o Sahel e a República Democrática do Congo agravam a situação, impedindo o acesso à terra e a fontes de renda para milhões de pessoas.
As mudanças climáticas intensificam a vulnerabilidade no continente, com eventos extremos afetando a produção de alimentos. A FAO estima que, se as tendências atuais se mantiverem, entre 510 e 520 milhões de pessoas ainda estarão desnutridas em 2030, sendo mais da metade na África. Este número está bem distante da meta estabelecida em 2015 de erradicar a fome até 2030.
Insegurança alimentar e o alto custo de uma dieta saudável
Em contrapartida, a América Latina e o Caribe, assim como a Ásia, registraram melhorias. Em 2025, a taxa de insegurança alimentar moderada ou grave na região foi de 22,9%, significativamente abaixo da África (56,6%) e da média global (25,8%). No entanto, a insegurança alimentar, que implica acesso irregular a alimentos e dietas limitadas, ainda afeta milhões.
Um dos dados mais alarmantes é o custo crescente de uma alimentação saudável. Quase uma em cada três pessoas no mundo não tem condições de arcar com uma dieta saudável, com os custos tendo aumentado 25% nos últimos cinco anos. O atraso no crescimento infantil afeta cerca de 25% das crianças menores de cinco anos, enquanto a obesidade em adultos continua a crescer, mostrando a complexidade do desafio nutricional global.
Guerra no Oriente Médio e El Niño exigem ação internacional
Eventos recentes, como a guerra no Oriente Médio, representam uma ameaça direta ao progresso alcançado. Laborde aponta que, embora os efeitos imediatos do aumento no custo de fertilizantes e energia tenham sido limitados até agora, a crise ainda não foi superada. A FAO e o Programa Mundial de Alimentos da ONU lançaram um apelo por ajuda preventiva para proteger quase nove milhões de pessoas do fenômeno climático El Niño.
A vulnerabilidade de países como o Malawi, que não têm responsabilidade sobre conflitos globais como a guerra no Golfo, mas sofrem com o aumento dos preços de insumos agrícolas, exige uma resposta solidária da comunidade internacional. Instituições financeiras e países doadores são chamados a entender a necessidade de amparar nações em situações extremas, absorvendo impactos de crises pelas quais não são responsáveis, ressaltou Laborde.





