O governo de Giorgia Meloni se consolida como o mais longevo da história republicana italiana, completando 1.413 dias no poder.
Nesta sexta-feira, 4 de outubro, o governo liderado por Giorgia Meloni marca um feito inédito na Itália republicana, tornando-se o mais duradouro em 80 anos. A coalizão de direita, vitoriosa nas eleições de 2022, alcançou um marco de estabilidade política raramente vista no país e, mais recentemente, em outras nações europeias.
Para celebrar a ocasião, o partido Irmãos da Itália, fundado por Meloni, organiza um evento em Bari, no sul da Itália, com a expectativa de reunir cerca de 10 mil apoiadores. Este evento, que se assemelha a um comício, promete dar o tom da campanha eleitoral que se avizinha, com eleições gerais previstas para 2027.
A estabilidade política é frequentemente exaltada por Meloni como uma de suas principais conquistas. Antes de seu governo, o segundo mandato de Silvio Berlusconi, que durou de 2001 a 2005, era o mais extenso desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Os 16 anos anteriores à ascensão de Meloni foram marcados por nove governos distintos e oito primeiros-ministros diferentes, com quatro eleições gerais nesse período. Conforme informação divulgada pelas fontes, em três dessas quatro legislaturas, novas coalizões surgiram de crises internas sem passar pelo escrutínio direto dos eleitores, como foi o caso do governo de Mario Draghi, antecessor de Meloni.
A força da coalizão e a liderança de Meloni
Um dos fatores cruciais para a atual estabilidade reside no resultado eleitoral de 2022. A coalizão formada por Giorgia Meloni, Matteo Salvini (Liga) e o falecido Silvio Berlusconi (Força Itália) obteve 43% dos votos, uma vitória expressiva não vista desde 2008. Meloni soube capitalizar essa vantagem, consolidando seu partido como o mais forte dentro da aliança.
“Ela sabe comandar a coalizão”, afirma Gianfranco Pasquino, professor emérito de ciência política da Universidade de Bolonha. “Conseguiu manter Liga e Força Itália juntos, com grande capacidade política e organizativa, combatendo impulsos mais extremistas”, acrescenta Pasquino.
Desde a posse de Meloni, a Força Itália passou a ser liderada por Antonio Tajani, após o falecimento de Berlusconi. Matteo Salvini, por sua vez, viu sua influência diminuir, inclusive dentro de seu próprio partido. Os vice-premiês representam visões distintas, com Tajani, de centro-direita, sendo mais pró-europeu, enquanto Salvini, de ultradireita, diverge de Meloni em questões como o apoio à Ucrânia.
Apesar das diferenças, a aliança política tem se mantido coesa. “Eles continuam de pé porque é uma questão de sobrevivência”, explica Pasquino. “Se perderem o poder, em uma crise de governo, há o risco de vitória da centro-esquerda. Então, continuam compactos apesar das diferenças”, conclui.
A transição de Meloni e a gestão pragmática
Outro elemento fundamental para a longevidade do governo foi a habilidade de Meloni em transitar de uma posição eurocética para uma liderança conservadora pragmática. “Ela se mostrou prudente, seja no plano fiscal, seja nas relações internacionais”, observa Lorenzo Castellani, cientista político da universidade Luiss Guido Carli.
Castellani destaca que Meloni “conseguiu amortizar choques, como o energético, causados por guerras, e até com Donald Trump”. Fundadora de um partido com raízes no pós-fascismo, Meloni formou um gabinete com nomes moderados em pastas importantes e demonstrou respeito pela Constituição. Sua única derrota significativa ocorreu em março deste ano, quando uma tentativa de reforma judicial via referendo popular foi rejeitada.
O governo adotou uma postura de “lei e ordem”, com a aprovação de novas tipificações criminais e penas mais rigorosas. Paralelamente, não houve avanços em direitos civis e sociais, e a Itália permanece em posições inferiores no ranking europeu de direitos e discriminação contra pessoas LGBTQIA+.
O papel da oposição e os desafios econômicos
A estabilidade do governo Meloni também foi auxiliada pela fragmentação da oposição. “A oposição jamais conseguiu desafiá-la em questões concretas. Tirando a derrota no referendo, Meloni sempre teve na mão a agenda da discussão política”, avalia Castellani.
Como resultado da estabilidade, a taxa de desemprego na Itália caiu para 5,8%, uma redução de dois pontos percentuais desde o início do mandato. O período pós-pandemia contou com recursos da União Europeia, totalizando €194 bilhões (R$ 1,1 trilhão) para a recuperação italiana, um plano que foi administrado sem maiores problemas pelo governo.
Contudo, o crescimento econômico permanece um desafio. O PIB italiano tem previsão de crescimento de apenas 0,5% para este ano e o próximo, abaixo da média da zona do euro. “A grande indústria, pública e privada, não está em ótimo estado”, aponta Castellani. Na percepção pública, os principais problemas atuais são a violência (38%) e a saúde (34%), segundo levantamento Ipsos.
Um dado positivo foi a redução de 58% nos desembarques de imigrantes irregulares pelo Mediterrâneo entre 2023 e 2025, embora mais de mil mortes e desaparecimentos tenham sido registrados em águas italianas no último ano. Meloni, no entanto, não conseguiu avançar em suas propostas de reforma mais ambiciosas, como a eleição direta para primeiro-ministro, devido a divergências internas na coalizão.
O futuro político e a campanha eleitoral
“É preciso dizer que os eleitores de Meloni não pedem reformas, eles pedem proteção e que o governo intervenha menos”, reflete Castellani. O partido de Meloni mantém cerca de 26% das intenções de voto, resistindo a ameaças como o movimento de ultradireita liderado pelo ex-general Roberto Vannacci.
Para a campanha eleitoral, Castellani prevê que Meloni focará na estabilidade alcançada. “Vai se apresentar como alguém capaz de governar e manter unida uma coalizão, à diferença da centro-esquerda e de Vannacci”, afirma o cientista político. O discurso de Meloni em Bari servirá como um termômetro para as estratégias eleitorais futuras, visando a manutenção do poder em 2027.





