A violência na Guerra da Ucrânia atingiu seu pico mais alto após o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, há um mês. Conflitos interligados mostram Moscou e Kiev buscando tirar proveito da nova realidade geopolítica.
Dados recentes do americano Acled indicam que as duas semanas após a eclosão do conflito no Oriente Médio registraram recordes de episódios violentos na guerra europeia. Foram 2.245 ocorrências entre 6 e 12 de março, seguidas por 2.041 no período subsequente.
Essa escalada coincide com uma **diminuição do interesse global** na invasão iniciada pela Rússia há quatro anos. O Google Trends, que mede o interesse em buscas de 0 a 100, ilustra essa mudança: no último mês, a busca por “Iran” teve índice médio de 29, contra apenas 2 para “Ukraine”.
No dia em que a guerra no Oriente Médio eclodiu, 28 de fevereiro, a busca por “Iran” atingiu 100, enquanto “Ukraine” marcou 2. Em contraste, quando os tanques russos cruzaram a fronteira ucraniana em 24 de fevereiro de 2022, o interesse era invertido, com “Ukraine” a 100 e “Iran” a 3.
Enquanto a Rússia realizou o ataque mais intenso da guerra, a Ucrânia também tem intensificado o uso de drones, com 302 ações registradas na semana de 13 a 19 de março, um novo recorde para o país.
Rússia capitaliza alta do petróleo e prepara nova ofensiva
A guerra no Irã, do ponto de vista político, tem sido **vantajosa para a Rússia**. O preço do barril de petróleo disparou, ultrapassando os US$ 100, em um cenário onde o Banco Mundial previa o menor preço da commodity em décadas. O fechamento do estreito de Hormuz pelo Irã, por onde escoa 20% do óleo e gás natural liquefeito global, intensificou essa alta.
Em um movimento para tentar mitigar a piora do cenário global, Donald Trump suspendeu sanções ao petróleo russo por 30 dias. Embora a União Europeia considere que isso não salvará a economia russa nem garantirá a continuidade da guerra, representa um alívio momentâneo para Moscou.
A Rússia, por meio de Vladimir Putin, reafirma a segurança e confiabilidade de seus produtos, incluindo **petróleo, gás e fertilizantes**, cujos preços estão em forte alta. Essa postura de “vendedor confiável” tende a perdurar enquanto o conflito no Irã durar.
Ucrânia reage com ataques a instalações russas e busca aliados estratégicos
A Ucrânia, por sua vez, tem intensificado seus ataques a instalações petrolíferas russas. O principal terminal de embarque de óleo no Mar Báltico, Primorsk, foi duramente atingido por drones na semana passada. Na terça-feira, a segunda maior instalação na região, Ust-Luga, ficou em chamas após dois ataques em dois dias.
Esses ataques levaram o Kremlin a prometer retaliação contra países como os Estados Bálticos. A queda de um drone armado na Lituânia evidenciou que Kiev busca rotas alternativas para atingir a costa russa.
A guerra também aproximou a Ucrânia de aliados árabes dos EUA, que estão sob fogo constante da retaliação do Irã, um sócio estratégico da Rússia. Em 26 de março, Volodimir Zelensky assinou um acordo de cooperação em defesa com a Arábia Saudita, oferecendo tecnologia antidrone em troca de armas ou recursos financeiros.
Foco em negociações e a volta de Trump ao cenário geopolítico
A pressão de Donald Trump para que os rivais chegassem a um acordo na Ucrânia diminuiu. Com as prioridades americanas voltadas para o Oriente Médio, o tempo volta a correr a favor do Kremlin. Dmitry Peskov, porta-voz de Putin, afirmou que Zelensky precisa tomar uma decisão sobre um acordo de paz, não apenas um cessar-fogo.
Há a aposta de que Trump se envolverá tanto com o imbróglio no Oriente Médio que o tema Ucrânia pode cair no esquecimento por um tempo. Putin pode colher, ainda, a **acentuação da rivalidade entre os EUA e seus parceiros europeus**, com Trump criticando a OTAN por não apoiá-lo.
Incentivar a divisão no Ocidente é um imperativo geopolítico para a Rússia, que já apostava nisso ao invadir a Ucrânia. Embora não tenha funcionado com Joe Biden, a possível volta de Trump se encaixa no roteiro do Kremlin. Contudo, observadores temem que a Rússia possa se tornar o próximo item na agenda americana após alguma resolução no Irã.




