Guerra no Sudão: O Terror dos Drones em Refúgios Frágeis e a Crise Humanitária Ignorada
Hassan Koko, um agente comunitário de saúde de 50 anos, sobreviveu a um ataque devastador em novembro passado. Um drone militar atingiu o local onde ele participava de um curso de capacitação na região dos Montes Nuba, na fronteira entre o Sudão e o Sudão do Sul. O ataque não apenas o deixou ferido, mas também tirou a vida de vários de seus colegas.
“O drone atacou uma vez e depois voltou, atingindo aqueles que já estavam feridos”, relata Koko, mostrando as cicatrizes em suas pernas. Essa experiência sombria é uma nova e aterrorizante realidade para os civis sudaneses, imersos em um conflito que já dura três anos. O uso crescente de drones, antes mais comum em outros cenários de guerra, agora assombra a população do Sudão.
Segundo dados da ONU, entre janeiro e meados de março de 2026, mais de 500 civis foram mortos por ataques de drone, com crianças sendo as vítimas mais frequentes. A vida de Koko, assim como a de milhões de outros, mudou drasticamente. “Minha família ficou feliz porque eu sobrevivi. Eles achavam que eu ia morrer”, confessa. “Mas a vida não é mais a mesma. Às vezes eu desço até o mercado próximo, mas, na maior parte do tempo, fico preso em casa.”
A Crise Humanitária Negligenciada do Sudão
O conflito no Sudão, iniciado em abril de 2023 entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), é frequentemente descrito como a pior crise humanitária do mundo, paradoxalmente, a mais negligenciada. A falta de cobertura midiática e o escasso apoio internacional agravam a situação de cerca de 14 milhões de pessoas deslocadas à força e mais de 150 mil mortos.
Montes Nuba: Um Palco de Conflitos e Deslocamentos
A região dos Montes Nuba, um território vasto e diverso que abriga mais de 50 grupos étnicos, tornou-se uma das áreas de conflito mais ativas. Historicamente, a região lutou ao lado do Sudão do Sul e, após a independência em 2011, ficou em uma posição geopolítica delicada. O Movimento Popular de Libertação do Sudão-Norte (SPLM-N), que estabeleceu uma administração paralela, buscou autonomia por décadas.
Diante do aumento das hostilidades e do ressentimento local, o SPLM-N formou uma aliança controversa com a milícia paramilitar RSF em fevereiro de 2025. “Ambos os lados têm um interesse em comum, e é por isso que estão alinhados neste momento, para fazer frente às SAF”, explica Jalale Getachew Birru, analista sênior do projeto Acled. Essa aliança trouxe soldados da RSF para centros urbanos e mercados dos Montes Nuba, gerando uma nova camada de tensão.
Refúgios Precários e Financiamento Insuficiente
Jalal Abdulkarim, funcionário do SPLM-N, coordena o apoio a refugiados nas chamadas áreas libertadas, registrando 2.885.393 refugiados em áreas controladas pelo SPLM-N desde o início da guerra. No entanto, o financiamento para esses programas, que depende de ONGs internacionais e agências da ONU, está sob forte pressão. A redução de recursos, agravada por cortes anteriores em agências de desenvolvimento, torna insuficiente o fornecimento de alimentos, água, abrigo e saneamento.
O Campo de Recepção Umm Dulo, por exemplo, abriga mais de 34 mil pessoas em abrigos temporários improvisados. Fatma Eisa Kuku, de 76 anos, fugiu de Kadugli após presenciar o sequestro de seus irmãos e o som incessante de tiros. No campo, ela encontrou um refúgio temporário, mas o trauma permanece. A tensão é palpável, com a RSF raramente se misturando às comunidades locais, transformando espaços como hospitais e mercados em potenciais alvos de guerra.
O Futuro Incerto dos Montes Nuba
O acordo militar entre a RSF e o SPLM-N permanece pouco conhecido, mas relatos indicam o estabelecimento de campos de treinamento militar em territórios controlados pelo SPLM-N. Combatentes da RSF feridos buscam refúgio em meio ao calor extremo, expressando um desejo inesperado de permanecer na região. “Estamos lutando porque o governo [do Sudão] não está fazendo o suficiente”, explica Hassan Hamid, um combatente da RSF. “Não há hospitais suficientes, infraestrutura nem escolas.”
Enquanto a guerra continua, a população dos Montes Nuba vive sob a constante ameaça de ataques aéreos e a incerteza de um futuro em meio a uma crise humanitária que clama por atenção global.





