A velha máxima “faça o que eu digo, não faça o que eu faço” ganha contornos polêmicos no Instituto Conhecimento Liberta (ICL), após demissões em massa e a revelação de uma manobra financeira para evitar o pagamento de impostos sobre lucros e dividendos. O caso levanta questões sobre a credibilidade do discurso de igualdade defendido pelo empresário Eduardo Moreira, criador da instituição.
Por anos, Eduardo Moreira, conhecido como o “Silvio Santos da esquerda”, construiu sua imagem pública como um fervoroso defensor de uma reforma tributária que taxasse mais a renda dos mais ricos e menos o consumo. Suas falas frequentes em programas e entrevistas criticavam o agronegócio e a concentração de riqueza, defendendo o confronto como motor de mudanças sociais.
No entanto, a recente crise no ICL expôs uma faceta inesperada. Após demitir parte de sua equipe, Moreira admitiu ter antecipado uma distribuição milionária de lucros justamente para fugir da tributação sobre dividendos, uma medida que ele próprio historicamente defendia.
As informações surgiram após portais de esquerda divulgarem que o ICL antecipou cerca de R$ 43 milhões em lucros referentes a 2024 e 2025, com Eduardo Moreira recebendo aproximadamente R$ 25,1 milhões. Embora a manobra seja legal no Brasil, o que gerou controvérsia foi a justificativa do empresário em um vídeo publicado em suas redes sociais.
ICL em Crise: Demissões e a Polêmica da Antecipação de Lucros
O Instituto Conhecimento Liberta (ICL), fundado como uma plataforma de educação online com cursos que vão de finanças a palestras com figuras de esquerda como Leonardo Boff e Marilena Chauí, enfrenta uma severa crise de reputação. Os recursos provenientes das assinaturas financiam as produções jornalísticas do instituto, que recentemente demitiu nomes importantes de sua equipe, incluindo o diretor de jornalismo Leandro Demori.
Inicialmente, Moreira atribuiu as demissões a um ajuste de custos, citando que o jornalismo do ICL representava um gasto crescente, com projeções de R$ 8 milhões em 2024, R$ 14 milhões em 2025 e R$ 22 milhões em 2026. Reorganizações financeiras e cortes de despesas são comuns no setor privado, especialmente em mídias digitais.
Moreira Admite Evitar Imposto de Renda sobre Dividendos
A situação tomou outro rumo com a revelação da antecipação da distribuição de lucros. Em vídeo, Eduardo Moreira confessou que a distribuição de R$ 43 milhões foi realizada para evitar o pagamento de mais de R$ 5 milhões em impostos sobre dividendos. Ele justificou a ação afirmando que a nova tributação sobre dividendos, que ele considera correta em tese, se tornava “indevida” quando aplicada a seus ganhos.
“O caixa da empresa foi distribuído todo no ano passado para os sócios, porque teve uma mudança tributária no país, que passou, corretamente, a gente sempre defendeu isso, a tributar os dividendos. Então a gente precisou fazer isso para não pagar indevidamente mais de 5 milhões de reais em impostos e tributos”, declarou Moreira.
Tributação de Dividendos: Mudança que Afeta o Bolso dos Mais Ricos
A tributação sobre lucros e dividendos, que estava isenta no Brasil há 30 anos, foi retomada pela Lei 15.270/2025. A medida visa compensar a perda de receita com a ampliação da isenção do Imposto de Renda para trabalhadores que ganham até R$ 5 mil mensais. A nova lei estabelece uma alíquota de 10% sobre dividendos acima de R$ 50 mil mensais a partir de janeiro de 2026.
Empresas correram para aprovar e distribuir lucros ainda em 2025 para se adequarem às regras e evitar a nova cobrança. O ICL, sob a liderança de Moreira, agiu da mesma forma, gerando um debate sobre a coerência entre o discurso público e as ações privadas. Os sócios que permaneceram no ICL utilizarão o dinheiro distribuído para cobrir compromissos financeiros futuros, enquanto os que saíram já embolsaram os valores.





