Israel vota em eleição crucial, marcada pela memória do 7 de Outubro e incertezas sobre o futuro
Israelenses vão às urnas nesta terça-feira (27) para eleger um novo Parlamento, em um pleito que ocorre pela primeira vez desde o devastador ataque do Hamas em 7 de Outubro de 2023. A data, que se tornou um marco indelével na história do país, lança uma longa sombra sobre a política interna e molda as prioridades dos eleitores.
Mais de 7 milhões de eleitores aptos a votar decidirão o futuro governo em um cenário complexo, onde a segurança nacional, o custo de vida e a responsabilização pelas falhas de 7 de Outubro são temas centrais. A sociedade israelense, já dividida antes do conflito, enfrenta agora a necessidade de encontrar respostas e um caminho a seguir.
A eleição se configura como um referendo sobre a liderança de Binyamin Netanyahu, mas as divergências vão além de sua figura, abrangendo a própria condução da segurança e a resposta às ameaças regionais. Conforme aponta o cientista político Karabekir Akkoyunlu, há um debate intenso sobre quem deve assumir a responsabilidade pelas falhas que permitiram o ataque terrorista, envolvendo o primeiro-ministro, as Forças Armadas e outras instituições estatais. As informações são do Canal 12, que divulgou pesquisa na sexta-feira (23).
Economia e Segurança no Centro do Debate Eleitoral
A economia e o custo de vida emergem como as principais preocupações para 21% dos entrevistados em pesquisa do Canal 12, influenciando diretamente suas escolhas de voto. Outras questões cruciais incluem o alistamento militar e a igualdade de obrigações (17%), as falhas de segurança de 7 de Outubro (14%), a segurança pública (13%) e a guerra com o Irã (10%). A reforma do Judiciário e a polarização social também aparecem com 9% e 8%, respectivamente.
A polarização interna é um fator determinante, com o eleitorado judeu israelense demonstrando um deslocamento para a direita desde 2023, especialmente na rejeição a um Estado palestino. Essa tendência se reflete nas prioridades dos eleitores, que variam conforme a preferência política. Para apoiadores do governo, a guerra com o Irã lidera as preocupações (21%), seguida por economia e reforma judicial (ambas com 18%). Já entre os eleitores da oposição, as falhas do 7 de Outubro (28%) e o alistamento militar (27%) são as principais bandeiras.
Netanyahu em Busca de Reeleição e Oposição Fragmentada
Binyamin Netanyahu, o premiê com mais tempo no poder na história de Israel, busca a reeleição à frente do Likud. Seu governo, formado em dezembro de 2022 com apoio de legendas religiosas e de extrema direita, enfrenta críticas pela resposta aos ataques do Hamas e um julgamento por corrupção, que ele nega. A controvérsia sobre o alistamento militar dos ultraortodoxos, em particular, gerou rupturas significativas.
O principal adversário de Netanyahu é Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e líder do partido Yashar (Íntegro). Eisenkot, que perdeu familiares em Gaza, deixou o gabinete de guerra de Netanyahu em desacordo com a condução do conflito. A oposição também inclui nomes como Yair Lapid e Naftali Bennett, unidos no B’Yachad (Juntos), Avigdor Lieberman (Yisrael Beiteinu) e Yair Golan (Democratas).
Apesar de um acordo de cooperação para retirar Netanyahu do poder, a oposição apresenta divergências que podem dificultar a formação de uma nova coalizão. O cientista político Akkoyunlu descreve a oposição como “um campo não da paz”, onde as diferenças com Netanyahu são mais evidentes na condução política e diplomática dos conflitos do que nos objetivos centrais de segurança.
O Papel dos Partidos Menores e Cidadãos Árabes
O sistema eleitoral israelense, com uma cláusula de barreira de 3,25% dos votos, confere um peso significativo aos partidos menores, que podem ser decisivos na formação de coalizões. Na atual configuração, essa influência recai especialmente sobre os ultraortodoxos e a extrema direita. A continuidade dessas alianças é central para a manutenção do governo de Netanyahu.
As projeções do Canal 12 indicam um cenário apertado, com o Yashar (Eisenkot) prevendo 23 cadeiras e o Likud (Netanyahu) 21. Os partidos sionistas de oposição somariam 56 assentos, enquanto os aliados do atual premiê teriam 50. Os 14 assentos restantes ficariam com as listas árabes, que podem desempenhar um papel crucial. Cidadãos árabes de Israel, que possuem direito ao voto, têm suas prioridades voltadas para a segurança pública, combate à criminalidade (65%) e economia (24%).
A Lista Conjunta, liderada por Yousef Jabareen, foca na questão palestina, enquanto o Ra’am, de Mansour Abbas, prioriza demandas cotidianas da população árabe. Abbas já indicou disposição para negociar com partidos sionistas, tendo participado do governo que afastou Netanyahu em 2021. Ele descarta apoiar uma nova vitória do atual premiê, considerando-a uma “catástrofe”. Eisenkot, por sua vez, rejeita coalizões com legendas árabes.
Formação de Governo e Impactos da Mudança de Liderança
O presidente Isaac Herzog consultará os partidos após a votação para encarregar um parlamentar de formar governo, com um prazo inicial de 28 dias, prorrogáveis. Se o indicado fracassar, outras tentativas podem ocorrer antes de uma nova eleição. Até que um novo governo obtenha a confiança do Parlamento, o atual permanece no poder.
Uma possível derrota de Netanyahu teria consequências domésticas significativas, como a redução da influência da extrema direita e possíveis mudanças na relação com o Judiciário, segundo Akkoyunlu. Embora uma nova liderança possa melhorar o diálogo diplomático com EUA e Europa, as questões estruturais e a estratégia em relação à Palestina, Irã e Líbano provavelmente não mudariam fundamentalmente.





