Omar Mohammed, o historiador que virou jornalista anônimo contra o Estado Islâmico, compartilha reflexões sobre a profissão e os riscos da atuação em regimes autoritários.
A cidade de Mossul, Iraque, foi capturada pelo Estado Islâmico (EI) em 2014, mergulhando a população em um período de brutalidade e opressão. Em meio a esse cenário, o historiador Omar Mohammed iniciou uma perigosa jornada dupla: professor universitário de dia e jornalista anônimo, autor do blog Mosul Eye, à noite.
Por quase dois anos, Mohammed documentou a vida sob o regime do EI, arriscando sua própria existência para trazer ao mundo a verdade sobre as atrocidades cometidas. Sua atuação secreta, embora repleta de medo, também lhe proporcionou um senso de propósito e adrenalina que ele hoje, paradoxalmente, sente falta.
Em entrevista, Mohammed expressa a impossibilidade de retornar ao seu país natal e a Mossul, sua amada cidade, devido a ameaças de morte de milícias paramilitares e remanescentes do Estado Islâmico. Sua história, marcada pela coragem e pela busca pela informação, foi divulgada em reportagem da Folha de S.Paulo.
A vida dupla sob o olhar do terror
Omar Mohammed, que nasceu e cresceu em Mossul, viu sua vida mudar drasticamente quando o Estado Islâmico tomou sua cidade. O grupo terrorista, que chegou a controlar um território de 8 milhões de pessoas, impôs uma ocupação violenta, com execuções públicas, estupros sistemáticos e perseguição a minorias.
Para registrar a história e manter-se vivo, Mohammed precisou se portar de maneira subserviente às exigências do EI, como usar calças acima dos tornozelos e frequentar as rezas obrigatórias. Sua atuação anônima no blog Mosul Eye se tornou uma das principais fontes de informação independente sobre a vida em Mossul entre junho de 2014 e dezembro de 2015.
O preço do anonimato e a saudade da adrenalina
Após conseguir fugir para a Turquia em dezembro de 2015 e, posteriormente, revelar sua identidade em 2017, Mohammed vive no exílio. Ele afirma que não pode retornar ao Iraque, temendo por sua vida. “Sei o que aconteceria se eu voltasse. As milícias paramilitares deixaram muito claro que me matariam na hora”, declarou à Folha.
Apesar do medo e do trauma vivenciados, Mohammed confessa sentir falta do período em que viveu uma vida dupla. “Não sinto falta do medo e do trauma. Mas sinto falta de controlar meu anonimato. Eles não conseguiam me encontrar, não conseguiam descobrir quem estava por trás [do blog]. Tenho saudade do sentido que isso me dava — e da adrenalina”, afirmou.
Pressões sobre o jornalismo: regimes autoritários e o público
Atualmente, Omar Mohammed leciona na Sciences Po, em Paris, e participou do 21º Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo da Abraji. Ele avalia que a profissão de jornalista sofre uma dupla pressão: de regimes autoritários e do público, que cada vez mais exige posicionamento.
“Ditaduras sempre querem controlá-lo”, disse Mohammed, enfatizando que jornalistas tornam a mentira custosa. No entanto, ele critica a pressão do público para que jornalistas tomem lados. “No momento em que você faz isso, não é mais jornalista, é ativista”, explicou.
O futuro incerto do jornalismo e a proteção precária
Mohammed também lamenta a precariedade na proteção de jornalistas. Ele relembra que, após a invasão americana em 2003, centenas de jornalistas foram mortos ou sequestrados no Iraque. “Infelizmente, não vai parar. Não acredito na habilidade da assim chamada comunidade internacional de proteger jornalistas.”
O cenário para o jornalismo, especialmente no Iraque, é preocupante. Mohammed compartilhou a angústia de um amigo jornalista que tem medo de atuar, não apenas do governo, mas da ausência de novos profissionais. “Se não há mais jornalistas, estamos perdendo a batalha”, concluiu.





