Justiça determina soltura de empresário da Love Funk e outros investigados na Operação Narco Fluxo, levantando questionamentos sobre a condução das prisões.
A Justiça determinou a soltura de Raphael Sousa Oliveira, proprietário da página Choquei e empresário ligado à produtora Love Funk, que era investigado no âmbito da Operação Narco Fluxo. A decisão, que também beneficia outros investigados, como os MCs Ryan SP e Poze do Rodo, surge após a defesa apontar supostas ilegalidades e falta de fundamentação nas prisões temporárias e preventivas.
A defesa de Raphael Sousa Oliveira alega que a decisão judicial não apresenta fundamentos individualizados, sequer mencionando o nome do empresário em um dos despachos. Argumentam que a decretação da prisão preventiva repete vícios já apontados, como a ausência de motivação concreta e específica que justifique a medida extrema.
O caso, que teve início a partir de provas obtidas em operações anteriores, como a Narco Bet e Narco Vela, investiga uma complexa organização criminosa voltada à lavagem de capitais. A Polícia Federal utilizou dados de armazenamento em nuvem, como o iCloud do contador Rodrigo de Paula Morgado, para mapear a estrutura do grupo, identificando a participação de artistas, influenciadores e operadores financeiros. Conforme divulgado pelo g1, a investigação nasceu de provas reunidas em operações que apuravam lavagem de dinheiro ligada a apostas, tráfico internacional de drogas e movimentações financeiras atípicas.
Origens da Operação Narco Fluxo e o Mapeamento do Grupo Criminso
A investigação que deflagrou a Operação Narco Fluxo teve seu ponto de partida na análise de arquivos armazenados no iCloud do contador Rodrigo de Paula Morgado. Morgado é apontado como peça-chave na organização, atuando como operador financeiro e articulando transferências bancárias, além de auxiliar na proteção patrimonial de MC Ryan SP. O acesso a esses dados permitiu à Polícia Federal cruzar informações como extratos, conversas e documentos financeiros, servindo como um verdadeiro “mapa” da organização criminosa.
Segundo a PF, o material digital revelou a relação entre operadores financeiros, empresas de fachada, influenciadores e artistas. A confiança depositada por Rodrigo de Paula Morgado na segurança do iCloud acabou facilitando o mapeamento da estrutura criminosa, que envolvia captação, internalização, custódia e redistribuição de dinheiro em espécie.
MC Ryan SP e MC Poze do Rodo: Papéis na Organização e Defesas
Ryan Santana dos Santos, conhecido como MC Ryan SP, foi identificado pela Justiça como o líder e principal beneficiário econômico da rede. A Polícia Federal afirma que ele utilizava empresas ligadas à produção musical e entretenimento para misturar receitas lícitas com recursos provenientes de apostas ilegais e rifas digitais. A defesa de MC Ryan SP, por meio de seu advogado, declarou que todas as transações financeiras do cantor são lícitas e possuem origem comprovada, alegando ainda não ter tido acesso aos autos que correm sob sigilo.
Marlon Brendon Coelho Couto da Silva, o MC Poze do Rodo, também figura na investigação. Ele é apontado como integrante da engrenagem financeira, ligado a empresas e estruturas financeiras utilizadas para a circulação de recursos de rifas digitais e apostas ilegais. Uma das empresas associadas ao funkeiro, a EMPOZE – Editora, Gravadora e Prestação de Serviços Ltda, foi incluída na lista de bloqueios judiciais. A defesa de MC Poze do Rodo afirmou desconhecer o teor do mandado de prisão e que se manifestará assim que tiver acesso ao processo.
Influenciadores e Páginas de Grande Alcance na Divulgação e Blindagem
A investigação aponta que influenciadores e páginas com grande alcance eram utilizados para divulgar apostas, rifas e, crucialmente, para melhorar a imagem pública do grupo. Raphael Sousa Oliveira, criador da página Choquei, foi apontado na decisão judicial como operador de mídia da organização. Segundo a PF, ele recebia valores diretamente de MC Ryan SP e outros para divulgar conteúdos favoráveis ao cantor, promover plataformas de apostas e rifas, e atuar na mitigação de crises de imagem.
A Polícia Federal apreendeu durante a operação diversos bens de luxo, como carros, relógios, joias, armas, dinheiro em espécie e equipamentos eletrônicos. Um dos itens que chamou atenção foi um colar com a imagem de Pablo Escobar, encontrado na residência de MC Ryan SP. A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores que podem chegar a R$ 1,63 bilhão, além do bloqueio de criptomoedas em diversas corretoras.
Defesas Contestam a Legalidade das Prisões e Buscam Revogação
O advogado de MC Ryan SP, Felipe Cassimiro, destacou que a decisão judicial reconhece a “ilegalidade das prisões” e que a revogação é uma consequência natural do reconhecimento do erro no prazo da prisão temporária. Já o advogado de Poze do Rodo, Fernando Henrique Cardoso Neves, criticou a condução do caso, afirmando que o novo pedido da PF não apresentou fatos novos.
A defesa de Raphael Sousa Oliveira informou que recorrerá imediatamente às instâncias superiores, incluindo o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, o Superior Tribunal de Justiça e, se necessário, o Supremo Tribunal Federal, para restabelecer a Constituição. O advogado criminalista Pedro Paulo de Medeiros reforça que a decisão judicial repete vícios já apontados, especialmente pela ausência de fundamentação individualizada em relação a Raphael Sousa Oliveira, e que a defesa questionará a decisão nas instâncias superiores.





