Pastor Paul Mackenzie, líder de seita queniana, é considerado culpado de assassinato de 191 pessoas, em sua maioria crianças, em um caso chocante de doutrinação apocalíptica.
O líder de uma seita apocalíptica no Quênia, Paul Mackenzie, foi condenado pelo assassinato de 191 pessoas, um veredito que chocou o mundo. A maioria das vítimas eram crianças, que teriam sido instruídas a jejuar até a morte por Mackenzie, com o objetivo de encontrarem Jesus.
A tragédia se desenrolou na floresta de Shakahola, onde seguidores foram levados a acreditar em uma doutrina que proibia a educação e considerava a medicina moderna como algo maligno. O caso veio à tona após a descoberta de centenas de corpos em covas rasas.
Conforme divulgado pela BBC News Brasil, outros 28 líderes da seita também foram considerados culpados de assassinato. Embora tenham se declarado inocentes, as evidências apresentadas durante o longo julgamento em Mombasa pintaram um quadro sombrio das ações de Mackenzie e seus seguidores mais próximos.
A Doutrina da Morte: Jejum e “Encontro com Jesus”
A juíza Diana Mochache, ao proferir o julgamento, destacou que os seguidores de Mackenzie o viam como um “porta-voz de Jesus”. As ordens de Mackenzie incluíam o jejum extremo, e um dos acusados relatou que qualquer um que resistisse a essa ordem seria “forçado a ir para o céu com socos e pontapés”.
As sepulturas na floresta eram ironicamente chamadas de “casamentos”, onde os mortos eram “homenageados como tendo se casado com Jesus”. Uma testemunha relatou o caso de uma mulher grávida que foi proibida de amamentar seu recém-nascido, sendo instruída a “jejuar até a morte e seguir seus filhos”.
Descoberta Macabra e a Busca por Respostas
A prisão de Mackenzie ocorreu em 2023, após a descoberta de mais de 400 corpos em covas rasas na floresta de Shakahola. A tarefa de escavar as covas foi realizada por cerca de 17 homens, que relataram encontrar, em média, três corpos por cova, muitos deles de bebês com poucas semanas de vida.
Um dos escavadores descreveu a cena de horror: “Certa vez, encontramos 12 corpos de crianças enfileirados dentro de uma cova. Era enorme, os corpos estavam dispostos como se fossem roupas, um em cima do outro”. Alguns corpos de crianças foram encontrados com as mãos e pés amarrados, enrolados em lençóis.
A Ascensão e Queda dos Ministérios da Boa Nova
Paul Mackenzie fundou os Ministérios Internacionais da Boa Nova em 2003. Ao longo de 16 anos, sua igreja ganhou popularidade, transmitindo sermões em sua estação de televisão, a Times TV. Seus ensinamentos incluíam teorias conspiratórias sobre educação ser “maligna”, assistência médica ser “contra a doutrina” e documentos de identidade digitais como a “marca do demônio”.
Em 2019, a igreja principal foi fechada e Mackenzie mudou-se para a floresta de Shakahola, incentivando seus fiéis a segui-lo. Um dos sobreviventes, Peter Shukrani, de 23 anos, relatou que sua mãe jogava fora todos os seus medicamentos, acreditando que “apenas Deus poderia me curar”, devido à doutrina de Mackenzie sobre a malignidade da medicina.
O Legado de Dor e a Busca por Justiça
Apesar do sofrimento extremo, alguns seguidores, como Shukrani, ainda expressam lealdade a Mackenzie, acreditando que ele “não forçou ninguém a jejuar”. No entanto, o filho de Mackenzie, Dan Paul Mackenzie, acredita que seu pai deve ser considerado culpado de assassinato em massa, por ser o líder e a figura de autoridade para seus seguidores.
Mackenzie e outros líderes da seita enfrentam ainda outros processos, incluindo acusações de terrorismo e radicalização. A sentença de Mackenzie pelas acusações de assassinato está prevista para 6 de novembro, encerrando um capítulo sombrio na história do Quênia.





