O livro ‘Born’ lança luz sobre a violência política e os sequestros que assolaram a Argentina antes da ditadura militar
A Argentina da década de 1970 é frequentemente lembrada por sua brutal ditadura militar, mas o período que antecedeu o golpe de 1976 é menos explorado. Era uma democracia marcada pela crescente violência política, com guerrilhas de esquerda e grupos parapoliciais de direita em confronto direto, culminando em sequestros e assassinatos.
É nesse cenário turbulento, entre a morte de Juan Domingo Perón em 1974 e o golpe militar de 1976, que se desenrola a história narrada em “Born”, livro da renomada jornalista argentina María O’Donnell. A obra reconstitui um episódio emblemático: o sequestro dos irmãos Juan e Jorge Born, herdeiros de um dos maiores impérios empresariais do país.
O sequestro, ocorrido em 19 de setembro de 1974, foi um verdadeiro thriller político. Os irmãos Born foram interceptados por militantes dos Montoneros, uma guerrilha urbana de esquerda peronista, que exigiram um resgate milionário. Este evento, detalhado por O’Donnell, serve como porta de entrada para a compreensão de um país à beira do abismo. A pesquisa da jornalista, que contou com o crucial testemunho de Jorge Born, será adaptada para o cinema e tem lançamento previsto no Brasil em 2027.
A escalada da violência em uma democracia fragilizada
Após a morte de Perón, a presidência foi assumida por sua esposa, Isabelita. Nesse vácuo de poder, proliferaram organizações como a “Triple A”, um grupo parapolicial de extrema-direita, que perseguia opositores de esquerda. Simultaneamente, grupos guerrilheiros como os Montoneros e o Exército Revolucionário do Povo (ERP) intensificavam a luta armada.
Os Montoneros, que inicialmente apoiaram o retorno de Perón do exílio com a esperança de uma revolução, viram suas expectativas frustradas com a aproximação do político ao sindicalismo tradicional. A guerrilha, buscando financiamento e alvos simbólicos, optou por sequestrar empresários de famílias ricas, como os Born, cujas fortunas eram vistas como um espólio da exploração capitalista.
O sequestro dos Born: um marco na violência política
A reconstituição do sequestro dos irmãos Born, realizada por O’Donnell, é descrita como eletrizante. Militantes disfarçados de funcionários públicos interceptaram os carros dos empresários em plena luz do dia. O episódio, que resultou no desaparecimento dos Born, exemplifica a audácia e a brutalidade das ações da guerrilha naquele período.
A cena evoca a tensão de produções cinematográficas que retratam a violência estatal, mas em “Born” a inversão é notável: a esquerda revolucionária se torna a executora da ação armada contra figuras proeminentes da elite econômica. Essa dinâmica complexa é um dos pontos centrais da obra de O’Donnell.
‘Born’: um olhar crítico sobre a violência revolucionária
O livro “Born”, publicado originalmente em 2015, tem sido associado a projetos cinematográficos, como o de Walter Salles, diretor de “Ainda Estou Aqui”. Enquanto “Ainda Estou Aqui” focava em uma narrativa que a esquerda latino-americana poderia abraçar, “Born” oferece uma perspectiva mais incômoda, forçando o leitor a confrontar a violência cometida em nome de ideais revolucionários.
María O’Donnell, uma das jornalistas mais respeitadas da Argentina, dedicou anos à investigação, recuperando o período em que a democracia argentina se deteriorava sob o peso da violência da extrema-direita e da esquerda armada. O livro “Born” é essencial para compreender a complexa Argentina que precedeu as certezas da ditadura militar.
O resgate e as consequências a longo prazo
O resgate exigido pelos Montoneros pelo sequestro dos irmãos Born foi de US$ 60 milhões, uma quantia astronômica que, na cotação atual, ultrapassa os R$ 2,1 bilhões. O’Donnell não apenas reconstrói a operação e o cativeiro, mas também acompanha as repercussões desse evento.
Surpreendentemente, quinze anos após o sequestro, Jorge Born se viu negociando novamente com antigos membros dos Montoneros. O objetivo era tentar reaver parte do dinheiro do resgate, evidenciando as complexas e persistentes relações que emergiram daquele período de intensa turbulência política e social na Argentina.





