Venezuela Pós-Maduro: Uma Ilusão de Recuperação Para a Maioria Afogada na Pobreza
A Venezuela pode parecer um país de contrastes gritantes. Desde a saída de Nicolás Maduro, a elite política local tem falado em recuperação econômica, impulsionada por promessas de investimentos na indústria petrolífera. Centenas de presos políticos foram libertados, mas o medo de represálias ainda paira no ar.
No entanto, para a vasta maioria dos venezuelanos, como professores, médicos e trabalhadores autônomos, a intervenção estrangeira pouco mudou. A vida continua sendo uma luta diária para sobreviver em meio aos escombros de uma economia devastada. A promessa de prosperidade ainda não chegou a eles.
Essas duras realidades foram compartilhadas por quatro professores de ciência política e economia da Universidade Central da Venezuela, em Caracas. Eles detalharam como 13 anos de governo de Maduro os empurraram para a pobreza extrema, impactando severamente suas vidas e a educação no país. Conforme divulgado pelo The New York Times, a situação econômica se deteriorou drasticamente.
Salários Que Não Cobrem o Básico: A Realidade dos Professores Venezuelanos
Pedro García, 59 anos, ex-professor e agora líder sindical de aposentados, relata uma realidade chocante: “Nos últimos cinco anos, a moeda desvalorizou tanto que meu salário equivalia a US$ 4 por mês. Ou seja, eu me esqueci que tinha um salário”. Para complementar a renda ínfima, ele passou a vender comida caseira nas filas de postos de combustível e a se desfazer de bens pessoais.
Sua aposentadoria, segundo ele, é “insuficiente para me impedir de morrer de fome”. A situação é um reflexo da profunda crise econômica que assola o país, onde bens básicos se tornaram luxos inacessíveis para a maioria da população. A desvalorização da moeda, o bolívar, atingiu níveis alarmantes.
Onda de Pessimismo e a Luta Pela Sobrevivência Diária
Carlos Hermoso, economista e colega de García, vê com ceticismo as promessas de recuperação. Ele acredita que qualquer “crescimento” baseado em investimentos externos pode ser apenas uma “miragem” para a maioria. A esperança, por mais desesperadora que pareça, é que a Venezuela se torne uma peça estratégica em disputas econômicas globais, como a competição entre EUA e China.
A reconstrução da indústria petrolífera, vital para a economia venezuelana, é um desafio monumental. Analistas estimam que o custo ultrapasse US$ 180 bilhões e leve mais de uma década, sem garantia de retorno aos níveis de produção do passado. Enquanto isso, o salário mínimo mensal mal atinge 27 centavos de dólar, evidenciando a **extrema pobreza**.
Apesar de ações pontuais na economia, os EUA não reforçaram as reservas cambiais do banco central venezuelano, como fizeram com outros países. Recentemente, o governo anunciou bônus para trabalhadores, totalizando US$ 240 mensais, um valor ainda muito inferior aos US$ 610 que uma família de cinco pessoas gasta apenas com alimentação, segundo estudos independentes.
Serviços Públicos em Colapso e a Emigração em Massa
Os cofres públicos permanecem vazios, e serviços essenciais como transporte, educação e saúde estão em estado precário. Quase 8 milhões de venezuelanos já deixaram o país durante o governo de Maduro, e poucos veem motivos para retornar com a **situação da Venezuela** atual. O pessimismo e a desconfiança dominam o cenário.
Nas ruas de Caracas, filas quilométricas para ônibus precários são comuns. Muitos veículos são remendos improvisados, e a falta de combustível agrava a situação. O outrora eficiente metrô da cidade opera com falhas, aumentando o tempo de deslocamento e o sofrimento dos cidadãos. A **crise na Venezuela** afeta todos os setores.
Yelmira Jiménez, líder de uma associação de motoristas, explica que os ônibus passam dias parados em filas para abastecer. Programas de aquisição de veículos falharam devido à má gestão e corrupção. Com a moeda em queda livre, a manutenção e reparo dos poucos veículos em circulação se tornam impossíveis para a maioria dos motoristas.
Pobreza Multidimensional e o Legado Corrompido de Chávez
Em bairros pobres nas encostas de Caracas, o desespero é ainda maior. Escolas com poucos professores, lojas sem produtos frescos e a busca incessante por emprego marcam o cotidiano. Um estudo da Universidade Católica Andrés Bello revelou que três quartos da população não têm renda suficiente para as necessidades básicas, e mais da metade vive em “pobreza multidimensional”.
Ana Bracho, que um dia ostentou uma tatuagem de Hugo Chávez, hoje vê o legado socialista corrompido. Suas críticas a Maduro a levaram a ser excluída de programas de assistência social. “Antigamente, o lema era: ‘Juntos, tudo é possível’. Acho que esse ‘tudo’ incluía roubo e desnutrição. Desemprego até a morte — é isso que temos”, lamenta.
O sonho de escapar da rotina leva muitos a apostarem no futuro. Nélida Salazar investe todas as suas economias no filho jogador de beisebol, Santiago Jesús Díaz, na esperança de que ele se torne um profissional e mude o destino da família. Ela vende doces caseiros e faz o que pode para garantir a nutrição do filho, enquanto reza por uma oportunidade de trabalho que parece não surgir.





