Maria Bethânia e Paulinho da Viola: um reencontro musical esperado, mas com protagonismo absoluto da cantora baiana
A expectativa era alta para o reencontro de Maria Bethânia e Paulinho da Viola no festival Doce Maravilha, realizado no último sábado, 8 de agosto, no Jockey Club Brasileiro, no Rio de Janeiro. O público presente ansiava por uma colaboração marcante entre os dois ícones da música brasileira.
No entanto, a participação da “Abelha Rainha” no show de Paulinho da Viola, embora carregada de talento, acabou por evidenciar um protagonismo unilateral. Bethânia, com sua presença imponente, tomou conta do palco, relegando o anfitrião a um papel de mero espectador em diversos momentos.
Apesar da oportunidade histórica, o reencontro, que remonta a interações nos anos 60 e até a uma turnê europeia em 1972, não atingiu o potencial de diálogo musical esperado. Conforme divulgado pelo jornalista carioca que escreve sobre música desde 1987, a participação da cantora no show de Paulinho da Viola frustrou a alta expectativa pela reduzida interação entre os artistas.
Um palco dominado pela “Abelha Rainha”
Quando Paulinho da Viola iniciou “Canção para Maria” (1966), samba composto com José Carlos Capinan e apresentado há 60 anos em festival, imagens de Maria Bethânia foram projetadas no telão. A partir daí, a expectativa pelo encontro no palco principal do festival Doce Maravilha cresceu ainda mais.
Imponente como de hábito, Bethânia assumiu o protagonismo. Após dividir o canto do samba “Falsa Baiana” (Geraldo Pereira, 1944) com Paulinho, ela foi dominando a cena. O sambista tornou-se um mero espectador quando Bethânia interpretou sozinha a balada “As canções que você fez pra mim” (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1966) e o samba “Reconvexo” (Caetano Veloso, 1989).
Colaborações pontuais e a sensação de “quase”
Antes da participação de Bethânia, Paulinho da Viola apresentou um set solo impecável, com o samba “Nas ondas da noite” (Paulinho da Viola, 1971) e outros clássicos de seu cancioneiro. A colaboração mais próxima ocorreu em “Desde que o samba é samba” (Caetano Veloso, 1993), onde ambos dividiram vocais de forma afetiva.
O dueto propriamente dito, além de “Falsa Baiana”, limitou-se ao samba “Sei lá, Mangueira” (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, 1968). Ao final, Bethânia cantou versos de “O mar” (Dorival Caymmi, 1940) para se despedir, deixando a sensação de que faltou disposição para mergulhar mais fundo no universo de Paulinho da Viola.
Um histórico de encontros e um festival memorável
O histórico entre Paulinho da Viola e Maria Bethânia é rico, com interações desde o início de suas carreiras. Um desses encontros, de 1969, foi eternizado no filme “Saravah” (1972). Em 1972, ambos excursionaram pela Europa e participaram do álbum coletivo “Nova bossa nova”.
Paulinho da Viola, ao final de sua apresentação, foi reverenciado como um nobre do samba e do choro. Contudo, a grandiosidade de Maria Bethânia fez com que até mesmo os mais nobres da música brasileira parecessem meros súditos diante da imponência da artista.
O festival Doce Maravilha e a consagração de Paulinho da Viola
O festival Doce Maravilha, em sua 4ª edição, celebrou a música brasileira no Jockey Club Brasileiro. Após o bloco de Bethânia, Paulinho da Viola presenteou o público com “Timoneiro” (Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho, 1996) e, em um bis emocionante, saudou Clementina de Jesus com o tema tradicional “Tava dormindo”.
Apesar do protagonismo de Maria Bethânia, o evento reforçou o legado de Paulinho da Viola, um dos maiores nomes do samba e da música popular brasileira, com uma trajetória marcada pela nobreza e pela excelência artística.





